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Leonardo Araújo Silva

O momento inicial que gerou a explosão do universo e sua contínua expansão é repleto de mistérios e de fascínios. A partir daí tudo aconteceu e o momento atual pôde existir. A expansão contínua do universo é como o faça-se de Deus que chamou tudo à existência. Algo que não cessa, mas está em movimento constante.


As fronteiras da fé e da ciência se esbarram na reflexão sobre o universo e, relacionando as duas podemos chegar a conclusões bastante enriquecedoras.


Foram necessários bilhões de anos para que a criação atingisse o estágio no qual se encontra hoje. Vários passos evolutivos foram se sucedendo até que o momento atual enfim chegasse.


A relação entre a ciência e a religião torna-se uma grande ajuda para compreender as bases da nossa existência, que tem o início de sua história no momento inicial que em Cosmologia é o big bang e em Teologia é o faça-se divino. Unindo os dois discursos poderemos refletir mais profundamente sobre o mistério maior que nos envolve: a existência.


No instante zero da existência de tudo, havia uma força de vida cujos limites não conheciam fronteiras. Cientificamente falando, estamos nos referindo à singularidade, o único ponto, infinitamente pequeno, inimaginável, bem menor do que um átomo, no qual estava concentrado todo o mistério da existência.


Repentinamente, este ponto se expande, a partir de uma grande explosão. Entre 0 e 1 segundo do momento inicial, muitas coisas aconteceram. Dividindo-se muitas vezes este tempo de um segundo, é possível saber o que ocorreu em cada bilionésima fração de tempo. Isto significa que o faça-se divino refere-se a cada mínima fração de tempo que pode ser medida. Na singularidade do big bang está presente a singularidade de um único ser, princípio de todas as coisas, único princípio, alfa e ômega, como diz a Escritura. Este único princípio também é trinitário, e sua palavra criadora se encarna em uma mulher para vir ao mundo ser conhecido pelos seus. A encarnação desta palavra significa a revivência constante do momento único no qual a singularidade quebra as fronteiras entre tempo e eternidade. A palavra eterna, presentificada no tempo traz a certeza de que a evolução do universo é um fato que se encontra em pleno acordo com a vontade suprema de seu único princípio. No início da expansão do universo, sua temperatura era muito mais elevada do que a do núcleo do Sol. Trilhões de graus começavam a se resfriar devido ao aumento de volume e diminuição de densidade. Após mais ou menos trezentos mil anos da explosão, sua matéria, já bem mais fria, começava a se organizar, possibilitando a combinação de partículas elementares que dariam origem ao próton e ao nêutron que, juntamente com o elétron, constituiriam as únicas partículas estáveis responsáveis pela estrutura da matéria. Além disso, neste período, a radiação cósmica de fundo do universo, atingiria sua uniformidade de propagação e o universo, de um estágio inicial violento e ativo, chegaria a um período de bonança e organização. Na primeira narrativa da criação, em Gênesis 1, temos claramente a elucidação disso, pois a partir de um momento de desordem total, a palavra ordenadora de Deus começa a colocar ordem em tudo. O Espírito de Deus pairava sobre as águas, ou seja, sobre o mais completo caos. O encontro do tempo com a eternidade, torna-se caótico, uma vez que uma grande barreira é rompida, ou seja, nascer não deixa de ser doloroso, mas é o início de um processo magnífico que, somente na eternidade não pode ser vivenciado, pois o eterno é imutável. Encarnando-se em Maria, Jesus, o imutável, vem para a dimensão da mutação e não parando na carne, percebe a necessidade de mudar-se também em alimento, o mais tradicional e sagrado que a humanidade consagrou: o pão. O pão divino é a Eucaristia, a expressão da mutação divina dentro do tempo, ou seja, a ação de um Deus que, não se contentando com a eternidade, assume a dimensão temporal para afirmar que no eterno, o temporal se realiza e no tempo o eterno se engrandece. Viver no tempo é ter a chance de superar os obstáculos que desafiam a existência. Tomar contato com o eterno é tomar posse da garantia de superação dos obstáculos. Esta é a ação de Jesus no Horto das Oliveiras quando diz ao Pai: afasta de mim este cálice; contudo, não se cumpra minha vontade, mas a sua. Entretanto, qual era a vontade de Jesus senão a do próprio Deus.


Logo após o período de recombinação da matéria, o universo estava pronto para dar prosseguimento à sua expansão. Uma plena uniformidade de uma radiação de fundo fluía tranqüilamente na imensidão do espaço cósmico. Contudo, se tudo é harmonia nada muda, tesouros permanecem enterrados sem fazerem reluzir sua beleza. Neste momento de sua evolução, o universo era vazio, apenas permeado por partículas elementares e pela radiação de fundo, não havia galáxias, nem estrelas, nem planetas. Foi preciso um novo empurrão. A tão harmoniosa radiação de fundo começou a sofrer flutuações, ou seja, quebra de sua harmonia, e, dessas flutuações foram se formando as primeiras galáxias, dentro das quais um conjunto imenso de gases e de poeiras iam se aglomerando. Isto significa que a criação não é constituída de uma única vez. Ela não é uma obra acabada, nem naquele tempo e nem agora. Isso me faz lembrar que também não sou acabado, mas me encontro em processo de evolução, de aperfeiçoamento, juntamente com o restante da criação, da qual sou uma das expressões. Acabar a criação consiste em levá-la rumo à sua causa eficiente que, ao mesmo tempo, é seu princípio e seu fim finalidade e não fim destruição, pois, na verdade, a criação é uma expressão da eternidade que queria passar pela mutação e, vindo da eternidade ela não conhece fim destruição. Assim, a criação está condenada a ser eterna pois surgiu de uma decisão irreversível da eternidade de criar um tempo e colocar dentro dele a sua pessoa que se fez carne e se fez pão, constituindo o mistério central da fé. A Eucaristia, centro de nossa fé, é a semente da eternidade que, colocada no tempo, comunica a ele a revelação de que a criação sempre foi eterna e que estar nela é sê-la e, comungar é receber o eterno e o temporal que, mesmo sendo tempo não pode mais deixar de ser eterno.


Continuando a reconstrução da história cósmica vamos agora avançar para ver o que ocorreu dentro das novas estruturas recém formadas no universo. Por enquanto, quase nada de novo. Os mesmos elementos estavam presentes, elementos leves, com números atômicos muito baixos: 75 % de hidrogênio Z = 1; 24 % de hélio Z = 2; 1 % de lítio Z = 3. Os gases e poeiras das protogaláxias continham apenas estes elementos, mas tudo começaria a mudar novamente pela atuação de uma misteriosa conseqüência, algo que foi descoberto e entendido somente no século XVII e repensado com novas conclusões no século XX. Este fator chave para a nova mudança que se processaria na criação é conhecido hoje como força da gravidade, ou seja, uma força de atração muito sutil, considerada a menor força da natureza que só pode ser sentida em corpos de grandes massas como os corpos celestes. Embora seja a menor de todas as forças, é a mais persistente, conseguindo superar as forças maiores do que ela ao longo do tempo. A obra da criação é uma obra de persistência, de sutilidade, de longos períodos de espera para que mudanças fundamentais aconteçam. Assim, não existe o imediato na criação, pois o imediato perde a riqueza do momento presente que deve ser saboreada pacientemente. Isso nos faz entender que a Eucaristia é o saborear de Deus, de forma lenta e paciente, a fim de que se revele dentro de mim, que sou criação, aquilo que me faz em comunhão com o eterno. Então, não comungo uma única vez, mas várias, inúmeras, incontáveis vezes, significando não o cumprimento de uma tradição, mas a paciência e perseverança para fazer acontecer em mim a Graça que me dá a vitória sobre tudo aquilo que penso ser mais forte do que ela, mas que, de fato não é, pois contra a resistência infinita da Graça, não há forças vencedoras por mais fortes que pareçam ser. A gravidade é a manifestação paciente da Graça na criação que possibilitou dentro das galáxias as mudanças necessárias para que a vida existisse.


Como as partículas de gases e de poeiras estavam muito próximas, a gravidade possibilitou a formação de corpos muito massivos que, possuindo núcleos cujas densidades se tornavam cada vez maiores começaram a produzir reações nucleares fortes – esta é a força mais forte da natureza – assim, surgiu uma estrutura inédita na evolução do universo, uma estrutura que batizamos de estrela. Uma estrela nada mais é do que uma bola de gás giratória e quente que têm uma força nuclear empurrando-a de dentro para fora e uma força de gravidade segurando-a de fora para dentro. A força nuclear constitui o combustível da estrela que, quando se exaure, perde sua disputa com a gravidade que fica livre para esmagar o astro. Então, a gravidade, sendo a força que chama uma estrela à vida, torna-se também a causa de sua morte. Mas a morte de uma estrela é porta para o nascimento de várias outras, pois ao longo de sua vida de milhões ou de bilhões de anos, como é o caso do Sol, ela ejeta no espaço através de um fenômeno chamado vento estelar, grande parte de sua massa. No fim de uma estrela, sobra-lhe apenas um pequeno núcleo, milhares de vezes menor do que sua massa total. Assim, no final de suas vidas as estrelas devolvem ao meio interestelar de onde vieram toda massa que as constituiu.


Em nossa caminhada no tempo, vivemos um ciclo de recepção e de devolução de dons à eternidade, pois se dela viemos, para ela retornaremos de uma forma misteriosa e dolorosa, mas necessária e também pacífica. O mistério pascal é a confirmação de que, diante da dor a Graça prevalece e que a tudo que nos abate poderemos vencer. Uma vida em comunhão com a criação e sua perfeição é suficiente para banir o desespero e o medo que nos momentos de fraqueza vêm nos derrubar. A Eucaristia é essa Graça que lentamente elimina as dores da existência transformando-as em sentido de vida.


Enfim, após a morte de cada estrela, novas estrelas são formadas, recheadas dos novos elementos formados pelas estrelas antigas. Com exceção dos elementos sintetizados em laboratório, todo o resto da tabela periódica, que é a maioria, foi formada no interior das estrelas, portanto, se não fosse pela ação delas o universo seria constituído somente de hidrogênio, hélio e lítio, elementos insuficientes para constituição de planetas e de vida. Na extrema complexidade do universo estão os planetas, formados com todos os elementos do universo primordial e os sintetizados nos interiores estelares.


Em planetas cujas condições foram favoráveis, as complexas reações químicas atingiram o nível orgânico, que foi se desenvolvendo até originar as formas complexas de vida. Todo este cenário é fruto de uma pesquisa muito minuciosa, desenvolvida no século XX e que revela a grande perfeição da obra da criação. Uma criação perfeita que emana de um Deus perfeito e que para Ele caminha, pois n’Ele se encontra o ponto de partida e o ponto de chegada.


A teoria do big crhuch, ainda em discussão, fala de um universo que se expande e depois implode, para explodir novamente e implodir, indefinidamente. Para que isso ocorra é necessário que a densidade do universo seja capaz de deter a expansão e possibilite a implosão. Mas hoje não se sabe se a matéria do universo é suficiente para isso. Contudo, a matéria luminosa que observamos, constitui de 5 % a 10 % da matéria do universo.


A maior parte dele é formada por uma matéria desconhecida, chamada de matéria escura, ainda não detectada e, por isso, não medida. Sabemos que a matéria luminosa não é suficiente para deter a expansão do universo, algo que não pode ser ainda falado da matéria escura. Talvez ao longo das pesquisas do século XXI se chegue a esta conclusão. Mas enquanto a ciência caminha para tal investigação, podemos dizer, com os olhos da fé, que mesmo estando errada esta teoria, a criação caminha para o único princípio do qual surgiu, esta é a sua meta cujo sucesso é inevitável.

Leonardo Araújo Silva é Filósofo, Físico e Teólogo Comunidade Raízes de Jessé

 

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