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Deus e as Asas

DEUS E AS ASAS

Sábado, dia 10 de outubro de 2015, Comunidade Raízes de Jessé.

 

Uma semana difícil um mês exaustivo.  Estou feliz pelos muitos planos de Deus se realizando em minha vida. Percebo os frutos de Deus sendo colhidos. Profissionalmente muitos planos e projetos em andamento. Projetos sonhados em comunhão com Deus. Perceber todo esse movimento de Deus em minha vida traz um misto de sentimentos: alegria, felicidade, esperança, luta, expectativa e vontade de prosseguir sempre mais além...

Inúmeras responsabilidades e planos rodeiam meu pensamento. Nas últimas horas, especificamente o sonho da implantação de uma casa para acolhimento de pessoas em situação de rua.

Deus já havia me dito três meses atrás que a terra está preparada e minhas mãos estão cheias de sementes. Sinto que chegou a hora da plantação.

Logo que o Pai me encorajou a seguir todos os projetos, lancei mão de toda força de trabalho, não fiz outra coisa senão seguir fielmente o plano traçado. Lancei-me na caminhada.

No entanto, agora ainda no início da jornada, deparei-me com as dificuldades. Uma árdua caminhada à frente. A visão das dificuldades e obstáculos. O entendimento de que o coração está tomado de sentimentos que precisam ser elaborados. Viver nossa própria história numa caminhada de respeito e de encontro à história do outro. Relatos de vidas, de perdas, de sonhos despedaçados. Como prosseguir o percurso sem a inevitável ocorrência de feridas da alma?

Sentia-me impregnada pela dor do conhecimento dessas coisas. Tomada pela vivência dolorosa de mim mesma e do outro. De alguma forma encontros, frustrações, emoções pelo caminho trazem a dor da espera.

Não me admiro agora porque tantos ignoram e preferem esquecer ou deixar de intervir em favor dos outros... Não raramente nessa caminhada deparamos com nossas próprias fragilidades e com a enormidade do problema a ser enfrentado. É como descobrir uma ferida aberta no peito, ou abri-la mesmo sem querer, com grande dificuldade de sutura.

Diante disso tudo ainda me deparo com meus próprios sentimentos e a necessidade de elaborá-los. Quanto mais se enfrenta o mundo com verdade, mas se olha para dentro de si mesmo. Olhando para dentro de mim, concluo que minha emoção às vezes se compara a uma pequena esponja. A esponja é capaz de sugar a água e eu sou capaz de reter e perceber sofrimentos e injustiças em todas as suas formas e intensidades.

Essa hipersensibilidade é um dom difícil de ser administrado, mas aqueles que o possuem detêm a nobre tarefa de fazer cumprir a caridade ao próximo, pois dificilmente fica alheio ao problema do outro.

Sei que nenhum ser humano é capaz de compreender o outro a não ser que viva idêntica situação. Nesse caso, sentir e perceber o problema do próximo torna-nos cada vez mais humanos.

Isso é muito positivo, mas se não administro esse dom, corro o perigo de ser emergida pela dor. Por isso, nos últimos meses rezei muito por essa característica e pedi ao senhor que me formasse, capacitando-me a viver todos esses sentimentos próprios e alheios sem perder o equilíbrio afetivo. Pedi insistentemente que o senhor me desse um coração forte.

Minha semana começou com essa prece e terminou assim...

- Hoje Deus me convidou a subir até o cume de uma montanha. Subir não é nada fácil, tem o esforço físico, o desgaste. Esse convite me fez recordar minha primeira corrida de aventura, quando no ano passado, percorri 12 km na montanha mais alta de Pedra Azul/ES. Lugar lindo. Tinha momentos em que eu pensava em desistir. Achei que não iria conseguir vencer todo o percurso. Mesmo assim, subi, subi sem cessar. Tudo pela vontade de chegar ao cume. Lá no alto da montanha fiquei sozinha, apesar das centenas de pessoas que corriam. E isso foi maravilhoso, um momento só meu. Às vezes tenho vontade de ficar sozinha, e são poucos os momentos em que consigo. Às vezes sinto necessidade de tempo para pensar só em mim, e isso é raro. Quando olhei a cachoeira, senti o vento, ouvia o silêncio da mata fechada, tudo era Deus, tudo falava de Deus. Foi divino. Respirar aquele ar, sentir a brisa leve, e até uma chuva no caminho, fez tudo valer a pena. Concluí a prova com alguns machucados, muitos calos e fortes dores pelo corpo, mas uma sensação única e indescritível: a de ser livre. Isso aconteceu um ano atrás.

Hoje o espírito santo quis me levar novamente ao cume, mas desta vez foi extraordinário!

Jesus pediu que eu subisse a montanha. Era muito alta e fui além das nuvens. Depois me pediu que eu saltasse. Não pensei duas vezes e pulei. Uma queda vertiginosa. Quanto mais caía mais velocidade tomava. Descendo em queda livre... nem pensava em nada. Totalmente desprotegida como uma filha se lança aos braços do pai, naquele momento nem pude lembrar que o chão me esperava. Nenhuma preocupação com a queda veio à minha mente, caindo vertiginosamente. Instintivamente sabia que era bom.

Alguns minutos de queda, nada no pensamento, nem a lembrança da existência de um chão. Lembranças vagas da distância, nenhum reconhecimento mental de riscos ou quedas, apenas via o espaço e o pedido de Deus. Não pensei em perigo, em morte, somente em liberdade. Pensei em alegria, amor, confiança.

De repente uma surpresa!!!!

Deus me disse que antes de chegar ao chão ele me conferia asas. As asas foram se formando logo após o meu salto e antes de chegar ao chão elas já haviam se formado.

Agora minhas asas estão crescidas e estou pronta para voar.

Deus me disse que me deu asas porque confiei plenamente em seu amor, confiei em seu pedido e me entreguei plenamente a “Ele”.

Ele disse: - Hoje lhe dou asas para realizar todos os sonhos... – Ele me disse: - suas asas lhe farão ir mais longe. Asas que “Eu lhe dou”, antes de chegar ao chão.

Minha filha, eu te dou asas porque você a mim se entregou, a mim confiou sua vida... eu lhe dou asas para ir sempre mais além...

Em seguida, o Senhor me pediu para sobrevoar meus desejos e pensamentos mais felizes...

Mas meus pensamentos não continham em desejos, não conseguiam ater às lembranças, somente queria estar no céu. Deus insistia! Mas eu não conseguia ater-me a pensamentos concretos, apesar de ter muitos.

Voava alto por entre as nuvens procurando o senhor. Meu único sonho era encontrar a Deus. Eu o procurava por entre as nuvens e até pude mentalizar um trono.

Por alguma razão eu me negava a sobrevoar meus desejos terrenos, meu único desejo era ver Deus, era estar com Deus. Será que ele está aqui? Será que está acolá? E voando buscava meu amado.

Mas Deus insistia, me exortando a sobrevoar meus sonhos. Eu queria apenas Deus. Queria ver e estar com Deus.

Passou-me até um pensamento egoísta de que não precisava voltar ou estar em lugar algum se estava na presença de Deus... E se fosse a vontade de Deus eu estaria livremente em seus braços. Não tive medo.

Deus voltou a me exortar e finalmente consegui sobrevoar realidades físicas. Então sobrevoei toda a terra, todo o mar, todo o ar, todas as cidades.

Foi quando Deus me disse: - Minha filha, esse seu desejo de ir sempre mais além e ter todas as coisas e todo o mundo... EU realizo agora. Comigo você pode todas as coisas, você pode sonhar sempre! Dou-te agora “olhos de águia” e você vê o mundo agora com meus olhos, você vê através de mim e eu vejo através de você.

As lágrimas rolaram dos meus olhos...

- Lembra filha? - Um dia você me pediu! Eu estou realizando seus sonhos... Agora lhe dou assas e forças para continuar. E voar, mais e mais!

Um minuto de silêncio!

Essas palavras me recordaram um fato em minha vida. – “Era um dia de semana, mais um na vida de uma estudante do curso de direito. Voltava para casa. No caminho, deparei com uma criança que dormia na calçada. Meu coração se compadeceu do abandono que ela vivia e a levei para minha casa, a república onde morava com três amigas. Naquele dia oferecemos banho, alimento, abrigo e carinho àquela criança de rua. Naquela noite quente de verão, quase não dormi; olhei pela janela da sala. Era uma noite muito estrelada e desejei que um dia Deus me concedesse condições de fazer o bem àqueles que sofrem por situação de abandono. Foi há vinte anos...

Naquele momento Deus me recordou:- Você está cansada da jornada, mas lembre-se que está realizando um sonho, um desejo.

Sem que minha pobre alma percebesse, Deus estava restaurando minhas forças para prosseguir um caminho pelo qual eu própria desejei. Caminho com o qual eu disse sim, e tudo exatamente tudo foi planejado por “Ele”. Quanto cuidado de Deus comigo! Chorei muito. Recordações sobre dias de promessas, vivência de sonhos, realizações, aprendizado, processo de confiança e fortalecimento em Deus. Eu não me lembro quanto tempo durou o voo lembro-me que Deus foi incisivo sobre a minha condição: se sou obediente e confiante, posso ser uma águia. Pequena águia de Deus.  Águia que procura e busca incansavelmente a presença do altíssimo.

Quando deixei os céus e voltei à terra firme, Jesus me recebeu na sua casa, a CASA DE NAZARÉ. O Senhor Jesus me abraçou. Seu abraço me reabasteceu. Como uma recarga de bateria num velho carro. A casa de Nazaré é minha casa espiritual. Ela é e sempre será minha primeira morada. Já entendi verdadeiramente que de lá parti e para lá voltarei. Mas Jesus não só me levou à casa de Nazaré como me reportou à minha casa material, meu lar. Mostrou todos os cômodos da minha residência, cada um trilhado lentamente por Jesus, Maria e José. Maria é presença mais constante. Minha mãe está em sentinela, ao lado da minha cama. Ela também me recebe em casa todos os dias e se despede antes que eu saia para o trabalho, aos pés da escada da garagem. Ao ver Maria aos pés da escada, lembrei-me de Nossa Senhora aos pés da Cruz de Cristo, foi uma comparação que fiz. Esse pensamento me exorta a aprender com Maria. O ensinamento sobre a posição de Maria diante das dificuldades, vem de encontro à minha necessidade de estar de pé diante dos desafios da vida. A posição firme, obediente e corajosa de Maria também me exorta a adorar meu Cristo e estar aos pés de sua cruz... É essa a posição de Maria, minha mãe: - aos pés da cruz, aos pés da escada.

Rememoro a posição de Maria: - posição de serva, de humilde, de mulher adoradora, de irmã fiel na dor. É como deve ser a minha posição: aos pés da cruz de Cristo, ao lado dos irmãos sofridos.

Comparações veem em meu pensamento sobre a atitude de Maria.

Hoje quando muitos filhos de Deus sofrem martírios, acredito que o Pai nos convoca a termos a mesma atitude amorosa de Maria. Hoje quando muitos dos nossos irmãos são crucificados pela exclusão social. Hoje quando muitas crueldades os assolam. Hoje quando muitos sofrem pela intolerância, pelo ódio, pela desunião e pela exclusão, Deus nos convida à postura de Maria. Mas diante desse chamado de Deus somente alguns querem trilhar o caminho do calvário.

Acredito que muitos irmãos estejam crucificados como nosso Cristo. E talvez nesse momento de dor alheia nossa atitude não seja adequada è atitude de um verdadeiro cristão. Por alguns momentos temos a atitude do apóstolo Pedro que apesar da firmeza na fé negou seu amor a Cristo. Por outros momentos, temos a atitude dos outros discípulos que apesar de conhecer e caminhar com o Cristo nos momentos decisivos foram tomados pelo medo e fugiram, abandonando seu primeiro e grande amor. Ou talvez tenhamos a atitude de Judas, apegados a valores materiais preferimos trair nossa comunhão com o senhor.

Mas Deus... sempre no exorta à atitude de Maria e a de João, o discípulo amado: - estarmos aos pés da cruz.

Enquanto eu ainda refletia sobre a posição de Maria, outra vez Jesus me falou.

“De repente, viu-se uma terceira casa, muito maior. Nessa casa, entram muitos, centenas, milhares de pessoas. Eles chegam, são alimentados, são vestidas, são cuidadas e quando estão preparadas voltam para suas famílias. Jesus me disse: - eu olho essas pessoas através do seu olhar, essas pessoas me veem através de você.

(Lágrimas)

O jovem que orava por mim não sabia qual era essa terceira casa, mas eu sim, certamente: era a casa “Arcanjo Miguel” para acolhimento de pessoas em situação de rua que está sendo projetada para a construção em minha cidade.

(Lágrimas de alegria e gratidão)

Obrigada Pai!

A terceira casa.

Ah! Meu senhor! O senhor tem amor eterno por todos os seus filhos.

Vejo que de alguma forma, todos os dias, muitos são ressuscitados pelo grande amor de Deus pela humanidade. Cristo vive eternamente! Debaixo dos escombros, pelas calçadas, no meio do vício, embaixo das pontes, por entre tristezas e riscos, Cristo ressuscitou! Aleluia!...

Foi como se Deus me dissesse: - porque você chora pequena discípula? Eu estou vivo! Nem a dor, nem a tristeza, nem dificuldade ou provação te separa do meu amor!

(Lágrimas)

Hoje concluo que as três casas foram construídas e embutidas. Ao centro está a CASA DE NAZARÉ, minha casa espiritual. Em seguida minha casa física, minha família, meu lar. Por último minha casa social, aquela que receberá as pessoas em situação de rua. Entendi o valor de todo o ensinamento de Deus em minha vida. Deus está me formando, está me estruturando, em todas as minhas construções. Está levantando todos os alicerces destas casas, sem as quais eu não tenho condições de viver. A primeira, o alicerce espiritual, minha essência, minha vida. Meu primeiro e ultimo abrigo. A segunda, minha alegria, minha felicidade minha família. A terceira, meu trabalho, minha missão. Elas se completam. Mas a primeira sempre conterá as outras e as envolverá em um grande cristal de vidro, uma redoma para que fiquem protegidas. Depois de mostrar as três asas, Jesus finalmente olhou-me e disse usando minhas próprias palavras para descrever meus sentimentos em relação à esponja:

- “A partir de hoje você não é mais uma esponja eu a torno forte o suficiente para cumprir sua missão.”

Coloco seu coração dentro do meu coração. O sangue que corre em meu coração passa pelo seu. O sangue do seu coração vem do meu. Eu te fortaleço...”

Pude entender plenamente as palavras do profeta Isaías quando diz que mesmo os jovens se cansam mas aqueles que confiam no senhor renovam suas forças. (Isaías 40, 33)

A experiência do voo, dos OLHOS DE JESUS, do CORAÇÃO DE JESUS, tudo se resume em adquirir FORTALEZA para suportar as esperas da vida. Sem Deus somos mais fracos e insignificantes diante dos gigantescos montes e montanhas que devemos subir. Com nosso Senhor, não há limites, não há barreiras. Por isso os cristãos foram comparados pelo profeta Isaías como águias. Verdadeiros cristãos voam alto. A mente de Cristo nos desafia a voar como águias. As águias voam sozinhas. Nós podemos ver outras aves voando em bandos, mas as águias andam a sós, no máximo duas. Muitas vezes esse deve ser o comportamento do cristão diante das circunstâncias do mundo. Ele fica sozinho indo de encontro contra as realidades. Dizem que as águias também demoram para amadurecer, em média um ano para voarem sozinhas. Para aprender a voar a águia mãe solta o filhote em queda livre e antes que caia ao solo lhe pega nos braços, isso fortalece a confiança, a coragem e acelera o processo de amadurecimento para o voo. Mas quando aprendem a voar, vivem nas alturas, junto do céu, do infinito de Deus. As águias fazem voos rasantes e quase sempre o voo se torna uma arte maravilhosa, tecida de beleza e grandiosidade. As águias enxergam ao longe, e conseguem ver criaturas minúsculas a quilômetros de distância. Esse deve ser o verdadeiro olhar espiritual do cristão. Por todas essas características, o sinônimo dessa ave pode ser coragem e força. A águia tem um ideal de vida: voar, voar, voar. Quando se lança ao voo se lança com tremendas expectativas. A águia é dona de um olhar poderosíssimo. Enfim, as águias também morrem mas dizem que não se pode encontrar um cadáver de águia. Quando chega o tempo de partir, não se lamentam nem ficam com medo. Até para morrer são extraordinárias, procuram um pico mais alto e voam com o resto de suas forças até lá onde esperam resignadamente. Quando Isaías comparou os cristãos as águias o povo estava no exílio. Depois de tantos anos de escravidão, ninguém pensava em liberdade ou vôo. Ninguém possuía mais forças, certamente estavam esgotadas pelo desgaste da jornada sem fim. Da espera dolorosa. Mas o senhor falou através do profeta e exortou o seu povo a confiar pois “ aqueles que esperam no SENHOR, adquirirão sempre novas forças, tomarão asa como de águia, correrão e não se fadigarão, andarão e não desfalecerão.”(Isaías 40, 31).

Senhor que eu nunca me esqueça da natureza que possuo. Natureza de filha amada. Nessa longa jornada da vida, quero aprender contigo, meu mestre. É extraordinário saber que o próprio Senhor nos ensina. O senhor pessoalmente vem ao nosso encontro nos assistir, educar-nos. Que lindo saber que o Senhor caminha conosco!

Senhor que eu saiba sempre voar em sua direção e que eu nunca me esqueça de sua presença viva, eficaz, única, poderosa. Sua Presença me confere diariamente forças. Sua companhia me dá novo vigor. Seu amor me confere um novo coração. Sua amizade me dá nova alegria. Seu olhar me ensina a ter um novo olhar e seus passos me encorajam a trilhar novos caminhos. Sua ressurreição me encoraja a viver sempre o novo: novos sonhos, novos projetos e nova história. Obrigada meu Mestre, meu Amado, meu Amigo, meu Jesus. AMÉM.

Geannini Maelli Mota Miranda

 

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