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O que é Oração

O que é oração?

Assim como nos voltamos a Deus no coração, também o fazemos em relação à palavra de Deus através da oração. “O que é oração?” “Como rezar?” “Com que frequência rezar?” São as dúvidas exploradas neste texto. Leon Tolstoi criou uma parábola que atinge o coração da verdadeira oração.

Três monges em uma ilha

Três monges russos moravam em uma ilha distante. Ninguém nunca ia lá, mas um dia o seu bispo decidiu fazer uma visita pastoral. Ao chegar, descobriu que os monges nem sequer conheciam o Pai-nosso. Então, ele empregou todo o seu tempo e energia ensinando-lhes o Pai-nosso e depois foi embora, satisfeito com o seu trabalho pastoral. Mas quando o seu barco deixou a ilha e estava de volta ao mar aberto, ele de repente viu os três eremitas caminhando sobre a água, na verdade, correndo atrás do barco! Assim que o alcançaram, gritaram: “Padre, esquecemos a oração que nos ensinou”. O bispo, estupefato com o que via e ouvia, disse: “Mas, queridos irmãos, então como vocês rezam?” Eles responderam: “Bem, apenas dizemos: ‘Querido Deus, existem três de nós e três de você, tenha misericórdia de nós!’” O bispo, admirado pela sua santidade e simplicidade, disse: “Voltem para a sua terra e fiquem em paz”.

Existe uma diferença entre aprender a oração e estar disposto a rezar, como ilustra a famosa parábola de Tolstoi. A disposição para rezar do coração é mais profunda e definitivamente mais importante do que orações particulares que são proferidas. As orações são expressões específicas de louvor e gratidão, confissão e rogo, súplica e intercessão. Exemplos de orações particulares são o “Pai-nosso” e a “Oração de Jesus”. A disposição para rezar, no entanto, é uma questão do coração, em grande parte não dita, que se revela em gentileza, paz, humildade, compaixão e outros frutos do Espírito (cf Gl 5, 22 s). Na história de Tolstoi, são os monges que rezam em espírito e verdade, e é o bispo que reconhece a santidade e disposição deles para rezar, a despeito de ignorarem o “Pai-nosso”.

Orações diárias e uma qualidade espiritualmente cultivada de disposição para a oração durante o dia possibilitam a admonição do Apóstolo Paulo para “rezar sem cessar”.

Oração incessante

Aos cristãos em Tessalônica, Paulo escreve: “Estai sempre alegres; orai sem cessar: por tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus, em Jesus Cristo” (1Ts 5, 17-18). Paulo não apenas encoraja a oração incessante, como também a pratica. “Damos sem cessar graças a Deus por vós” (1Ts 12,13), ele diz à sua comunidade na Grécia. “Por isso oramos incessantemente por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação” (2Ts 1,2). Aos romanos, escreve: “Incessantemente faço menção de vós” (Rm 1,9) e conforta o seu amigo Timóteo com as palavras: “Faço memória de ti nas minhas orações, de noite e de dia” (2Tm 1,3).

Os dois termos gregos que se repetem nas cartas de Paulo são pantote e adialeiptos, que significam “sempre” e “sem interrupção.” Essas palavras deixam claro que para Paulo, a oração não faz parte do viver, mas de toda a vida, não do seu pensar, mas de todo o seu pensamento, não da suas emoções e sentimentos, mas de todos eles. O fervor de Paulo não deixa espaço para compromissos parciais, doação paulatina nem generosidade hesitante. Ele dá tudo e pede tudo.

Tal radicalismo obviamente suscita algumas perguntas difíceis. O que significa rezar sem cessar? Como podemos viver a vida, com as suas várias demandas e obrigações, como uma oração ininterrupta? E a infinita gama de distrações que invadem dia após dia? Ademais, como o sono, momentos necessários de diversão e as poucas horas em que tentamos escapar das tensões e conflitos da vida podem ser elevados à oração incessante? Essas perguntas são reais e impressionam muitos cristãos que desejam levar a sério a exortação de Paulo para rezar sem cessar.

Um dos mais conhecidos exemplos do desejo de oração incessante é o do camponês russo do século dezenove que queria tanto ser obediente ao chamado de Paulo à oração ininterrupta que foi de eremita a eremita buscando uma resposta até finalmente encontrar um homem que o ensinou a oração de Jesus. Ele disse ao camponês que falasse milhares de vezes ao dia “Senhor Jesus Cristo, tenha piedade de mim”. Assim, a oração de Jesus, lentamente unia-se à sua respiração e às batidas do seu coração, de modo que ele poderia viajar pela Rússia carregando a sua bolsa com a Bíblia, pão e sal, vivendo uma vida de oração incessante.

Embora não sejamos peregrinos nem camponeses russos do século XIX, partilhamos a busca do simples peregrino: “como rezar sem cessar?” Não quero responder a essa pergunta no contexto das extensas e silenciosas pradarias russas do século XIX, mas no contexto do tumulto da nossa sociedade ocidental contemporânea. Sugiro que a prática da oração incessante seja um processo triplo: primeiro chamamos a Deus com todas as nossas necessidades e solicitações. Depois, transformamos os nossos pensamentos incessantes em contínua conversação com Deus.Finalmente, aprendemos a ouvir Deus em nossos corações através de uma disciplina diária de meditação e prática contemplativa.

Oração como clamor a Deus.

Em primeiro lugar, a oração é um clamor a Deus que parte do nosso coração. “Senhor, ouvi minhas palavras, escutai meus gemidos” é uma oração que vem do coração. “Atendei a voz de minha prece, ó meu rei, ó meu Deus. É a vós que eu invoco” (Sl 5,1-2).

Há tanto medo e agonia em nós. Medo das pessoas, medo de Deus e muita ansiedade crua, indefinida, volúvel. Pergunto-me se o medo não é o nosso principal obstáculo à oração. Ao entrarmos na presença de Deus e começarmos a sentir aquela enorme reserva de medo em nós, queremos fugir em direção às tantas distrações que o nosso turbulento mundo nos oferece com tamanha abundância. Mas não devemos ter medo dos nossos medos. Podemos confrontá-los, dar palavras a eles,clamar a Deus e levá-los à presença Daquele que diz: “ Não tenha medo, sou Eu.”

A nossa inclinação é revelar a Deus apenas aquilo com o que nos sintamos confortáveis em partilhar. Naturalmente, queremos amar e ser amados por Deus, mas também queremos guardar um cantinho da nossa vida interior para nós mesmos, onde possamos nos esconder e pensar sobre nossos próprios pensamentos, sonhar nossos próprios sonhos e jogar com nossas próprias criações mentais. Costumamos ser tentados a selecionar cuidadosamente os pensamentos que trazemos à nossa conversa com Deus.

O que nos faz tão incisivos? Talvez nos perguntemos se Deus é capaz de captar tudo o que passa pela nossa cabeça e coração. Deus é capaz de aceitar os nossos pensamentos odiosos, nossas fantasias cruas e nossos sonhos bizarros?  Depois é capaz de lidar com nossos institutos primitivos, ilusões infladas e exóticos castelos mentais? Essa retenção por Deus de grande parte dos nossos pensamentos nos leva a uma estrada que provavelmente nunca desejaríamos percorrer de forma consciente. É a estrada da censura espiritual – a supressão de todas as fantasias, preocupações, ressentimentos e pensamentos perturbadores que não desejamos dividir com ninguém, inclusive Deus, que tudo vê e sabe.

Ao escondermos os nossos pensamentos vergonhosos e reprimirmos as nossas emoções negativas, podemos facilmente escorregar pela escadaria emocional até o ódio e o desespero. É muito melhor clamar a Deus como Jó, derramando a Deus nossa dor e desespero e exigindo resposta.

Há muitos anos, Pierre Wolff escreveu um livrinho maravilhoso sobre a oração sem censura.  Chama-se Posso odiar Deus? E toca o centro da nossa luta espiritual.  Nossos diversos medos, dúvidas, ansiedades, ressentimentos, ele afirma, nos impedem de provar e ver a bondade de Deus. A ira e o ódio, que nos separam de Deus e dos outros, também podem se tornar o portal para uma maior intimidade com Deus. Tabus religiosos e seculares contra a expressão de emoções negativas evocam a vergonha e a culpa. Somente expressando a nossa ira e ressentimento diretamente a Deus em oração conheceremos a plenitude do amor e da liberdade. Somente despejando a nossa história de medo, rejeição, ódio e amargura poderemos esperar ser curados.

Os salmos estão repletos de agonias e gritos crus e sem censura do povo de Deus, derramados a Deus e pedindo socorro. Por exemplo: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?... Clamo de dia e não me respondeis; imploro de noite e não me atendeis” (Sl 22, 1-2).  “Minha voz se eleva para Deus e clamo.Elevo minha voz para Deus para que ele me atenda.  No dia de angústia procuro o Senhor. De noite minha mãos se levantam para ele sem descanso; e,  contudo, minha alma recusa toda consolação” (Sl 77,m 1-2). “Inclinai, Senhor, vossos ouvidos e atendei-me, porque sou pobre e miserável”(Sl 86, 1).

Quanto mais ousamos mostrar todo nosso tremulante ser a Deus,conforme fizeram os antigos que rezaram os salmos, mais seremos capazes de sentir que o amor de Deus, que é perfeito, bane os nossos medos, purifica os nossos pensamentos e cura o nosso ódio.

Oração como conversação.

Em segundo lugar, quando o monólogo passa a diálogo, a oração se torna uma conversa simples e íntima com o Senhor que nos ama. Por exemplo, quando rezo o salmo“Quando vos invoco, respondei-me, ó Deus de minha justiça, vós que na hora da angústia me reconfortastes. Tende piedade de mim e ouvi minha oração” (Sl 4, 2), às vezes ouço a resposta  de Deus: “Deus é nosso refúgio e nossa força, mostrou-se nosso amparo nas tribulações”  (Sl 45, 1). E quando digo a Deus o quanto me sinto solitário e sem amor, costumo sentir o encorajamento de Deus:“Porque sem limites é a sua misericórdia para conosco, e eterna a fidelidade do Senhor”  (116, 2). Depois de rezar, tento escutar a voz de Deus e guardar a palavra que ouço comigo durante o dia. Mediada através da palavra, a oração torna-se uma conversa com aquele que me conhece e ama.

Rezar incessantemente, como São Paulo nos pede, seria completamente impossível se significasse pensar constantemente ou falar continuamente com Deus. Rezar incessantemente não significa pensar sobre Deus contrastando com outras coisas, nem falar com Deus em vez de falar com outras pessoas. Ao contrário, significa pensar, falar e viver na presença de Deus. Embora seja importante e até mesmo indispensável para a vida espiritual reservar tempo para Deus e Deus isoladamente, a oração apenas pode se tornar incessante quando todos os nossos pensamentos, belos ou feios, elevados ou baixos, orgulhosos ou vergonhosos, tristes ou alegres, possam ser pensados expressos na presença de Deus. Assim, a conversão do nosso pensamento incessante em oração incessante nos transporta de um monólogo autoconcentrado em um diálogo centrado em Deus. Isso requer que transformemos todos os nossos pensamentos em conversação. A principal questão, assim, não é tanto o que pensamos, mas a quem apresentamos os nossos pensamentos.

Não é difícil ver como a mudança real ocorre em nossa vida diária ao encontrarmos a coragem de não mais guardar nossos pensamentos para nós mesmos, mas proferi-los, confessá-los, compartilhá-los, trazê-los à conversação. Assim que uma ideia embaraçosa ou jubilosa é retirada do isolamento e trazida a um relacionamento, com Deus ou outra pessoa, algo novo acontece. Ao assumirmos o risco e vivenciarmos a aceitação, nossos próprios pensamentos são investidos de uma qualidade nova e são transformados em oração.

Assim, oração não é introspecção. Não se volta para dentro, mas para fora.  A introspecção pode facilmente nos aprimorar no labirinto da análise voltada para o interior das nossas próprias ideias, sentimentos e processos mentais, e pode nos levar a indagações paralisantes, auto-absorção e desespero.  A oração é uma atenção externa e cuidadosa àquele que nos convida a uma conversa incessante. A oração é a apresentação de todos os pensamentos, pensamentos reflexivos, assim como sonhos e pesadelos, ao nosso Pai amoroso, que pode vê-los e respondê-los com compaixão divina. A oração é a afirmação jubilosa de que Deus conhece a nossa mente e coração sem nada escondido. De acordo com o salmista: “Senhor, vós  me perscrutais e me conheceis, sabeis tudo de mim, quando me sento ou me levanto. De longe penetrais meus pensamentos. Quando ando e quando repouso, vós me vedes, observais todos os meus passos. A palavra ainda me não chegou à língua, e já, Senhor a conheceis toda” (Sl 138, 1-4).

Oração como contemplação.

Por fim e fundamentalmente, a oração é uma atitude de coração aberto, silenciosamente afinada com o Espírito de Deus, revelando-se na gratidão e contemplação. A oração não é apenas clamor a Deus por ajuda (embora certamente esse seja o começo) nem falar com Deus sobre os nossos pensamentos; oração é um escutar silencioso que leva à contemplação perante Deus. Orações particulares podem-se tornar disposição para rezar do Coração, cultivando-se uma atitude de gratidão e um espírito de contemplação.

Conforme aprendemos a rezar, em algum ponto do caminho experimentamos o clamor a Deus sobre nossas necessidades como um monólogo, um assunto unilateral. E até mesmo quando a oração torna-se diálogo, com Deus falando e respondendo as nossas orações, desejamos mais a presença de Deus. A verdade é que a oração é mais que sentimento, fala, pensamento e conversa com Deus. Rezar também significa ficar quieto e escutar, sintamos ou não que Deus fala conosco. Mais do que qualquer coisa, a oração é sobretudo ouvir e esperar. Escutamos Deus em uma atitude de abertura do coração, humildade de espírito e quietude da alma. Deixamos a nossa mente descer ao coração e lá permanecer na presença de Deus.

Uma forma de permanecer perante Deus e rezar incessantemente é meditar com a oração de Jesus. Na parábola em que Jesus conta sobre o fariseu e o publicano, em Lucas 18, a simples oração do publicano –“Meu Deus, tem de misericórdia de mim, pecador” – foi ouvida e tornou-se conhecida na tradição ortodoxa oriental como a Oração de Jesus. A repetição bem lenta da simples frase “Senhor Jesus, misericórdia” cria uma qualidade mediativa que traz paz e repouso à alma. As palavras podem se tornar parte da nossa respiração, de todo o nosso ser. A beleza da Oração de Jesus é que podemos rezar no trabalho, ao dirigir, ao sentar para estudar, até mesmo ao comer ou adormecer.  Assim, rezamos sem cessar.

Com o passar do tempo, as nossas orações particulares tornam-se disposição para rezar, e a qualidade da disposição para rezar nos conscientiza mais da presença divina. Gradualmente aprendemos que Deus não é um Deus silencioso que não quer ser ouvido nem vivenciado. Deus não é um Deus resistente que tem de ser manipulado para prestar atenção a nós. Deus não é um Deus relutante que tem de ser convencido a fazer algo de bom para nós. Não, acabamos por perceber que Deus é um Deus de compaixão, “vagaroso na ira e abundante em amor firme”, que veio para morar em nosso meio e quer ser ouvido para que a cura venha.

Em resumo, a oração é um clamor a Deus, uma simples conversa e um escutar contemplativo na presença de Deus, que nos ama. Quando aprendemos esses aspectos, conseguimos fazer da disposição para rezar uma prática diária e, assim, como diz o Apóstolo Paulo,“orai sem cessar” (1Ts 5, 17).

Disciplina da oração.

A oração não é algo que venha natural ou facilmente. É algo que requer aprendizado e disciplina. Isso é verdade tanto ao se proferir orações particulares quanto para permanecer em contínua atitude de disposição para a oração ao aprender a rezar, é importante reservar um tempo definido, um local especial e um foco único.

Um tempo definido.

Nosso momento de oração poderia ser de manhã, ao meio dia ou à noite. Poderia ser uma hora, meia hora ou dez minutos. Poderia ser uma vez ou mais vezes ao dia. O importante é o compromisso com um tempo definido durante o dia para estar sozinho com Deus em oração.

A questão não é “devo rezar?”, mas “quando rezarei?” Antes de trabalhar? Durante um intervalo no meio do dia? À noite, antes de dormir? A maioria das pessoas acha que de manhã cedo é a melhor hora do dia que pode ser reservada para a oração, como Jesus fazia (cf Mc 1, 35). Se for inviável, então reserve alguma outra hora durante o dia para dedicar toda atenção a Deus. Qualquer meia hora durante o dia é melhor do que nada. Sem uma meia hora de oração pela manhã ou à noite, ou dez minutos de oração durante o dia, ou uma breve prece antes ou depois do jantar, começamos a esquecer que Deus está perto e que a nossa vida em Deus é uma vida de oração.

Um local especial.

Depois de reservar nosso tempo para Deus, estamos livres para seguir as palavras de Jesus: “Entra no teu quarto e, fechada a porta, ora a teu Pai em segredo” (Mt 6,6). Não apenas a hora, mas o lugar também é importante na oração. Escolha um lugar especial para rezar os salmos, meditar sobre o mundo ou contemplar a glória de Deus. Jesus costumava optar por subir uma montanha, entrar em um jardim, partir para o deserto ou repousar em um barco sobre as águas para rezar e ouvir Deus. O Apóstolo Paulo, quando estava na cidade de Filipos, procurou um lugar especial para rezar junto ao rio (At 16, 13). Ao ar livre ou não, onde quer que você se sinta mais à vontade, encontre um ponto sossegado e tranquilo para rezar e meditar.

O ideal é ter um cômodo especial na sua casa reservado à oração. Se esse lugar for decorado com imagens que falem de Deus, se houver velas para iluminar ou talvez incensos para queimar, você desejará estar lá com maior frequência. E quanto mais rezar lá, mais esse lugar estará cheio da energia e do poder da oração. Em tal espaço, não será difícil deixar o mundo para trás por um momento e deixar-se absorver pelo amor de Jesus.

Se não puder reservar um cômodo, encontre um “armário para orações” ou o canto de um cômodo para montar um altar ou arranje uma cadeira especial para rezar. E se não for possível, tente ir a uma igreja ou capela onde se sinta seguro e queira voltar. Embora seja verdade que é possível rezar em qualquer lugar, é melhor ter um horário particular e um lugar especial designados para orações solitárias regulares.

Um foco único.

O que fazer no horário e no local para a oração? A resposta simples é: apenas fique com Jesus. Deixe-o olhar para você, tocar você e falar com você. Acredite estar na presença de Deus. Fale de qualquer forma os desejos do seu coração. E aprenda a ouvir. Deixe Deus ser o foco unido do seu tempo reservado para estar na presença do Senhor.

Para a maioria de nós, essa resposta simples não é suficiente. A complicação é que, tão logo entramos na solicitude, descobrimos o quão cansados ou entediados estamos. Claro, se estivermos fisicamente exaustos, não podemos rezar. A coisa mais espiritual que podemos fazer nesse caso é tirar um cochilo. Quando estamos entediados, o tempo parece vazio e inútil.

Mas por que não usar um pouco de tempo “inútil” em nossos dias ocupados em oração? A oração não é estar ocupado com Deus, ao contrário de estar ocupado com alguém ou outra coisa. Oração é sobretudo uma hora “inútil” para estar com Deus, não porque eu seja tão inútil para Deus, mas porque não estou no controle. Se algo útil surgir da minha prece, é Deus quem o faz. Com o passar do tempo, o nosso tempo com Deus pode vir a se tornar mais frutífero. Mas isso não é da nossa alçada. O tempo reservado para a oração está sob o nosso controle, mas os resultados não estão.

Quando estivermos alertas e prontos para rezar, o que devemos fazer é encontrar um foco. Leia o Evangelho durante o dia, cante um Salmo ou escolha um versículo da Bíblia e leia-o vagarosamente.

Em todas as grandes tradições espirituais, os praticantes de oração ou meditação têm um único ponto de concentração. Para os cristãos, o foco pode ser o nome “Jesus”. Ou a Oração de Jesus: “Senhor, misericórdia”. Pode ser uma imagem sugestiva, uma palavra poderosa ou uma frase da Bíblia, algo que comande a sua atenção. O propósito de focar a sua oração é libertar a mente para meditar com o coração e contemplar a glória de Deus.

Lidando com as distrações.

Quando estamos aprendendo a rezar com um único foco, descobrimos o quão caótica a nossa vida interior se tornou. De repente, todos os tipos de pensamentos, fantasias e sentimentos dispersivos vêm à tona. Logo no sentimos como uma bananeira cheia de macacos saltitantes. Nossa mente é cheia de coisas para fazer: a carta que tentamos escrever, os telefonemas que precisamos dar, um compromisso de jantar que temos de manter, um artigo que temos de escrever, um insight que temos de captar, onde preferiríamos estar, nossas indagações e preocupações, etc.

Não se surpreenda. Você não pode fechar repentinamente a porta de uma casa que sempre estava aberta a estranhos e esperar que ninguém bata à porta de novo. Não combatemos as distrações empurrando as coisas para longe, mas focando uma coisa. É como olhar para uma vela por muito tempo. Lentamente, você começa a se sentir quieto conforme foca outra coisa, e então as distrações começam a desaparecer. Com a prática, você poderá aprender a reconhecer as distrações, optar por não as perseguir, mandá-las embora e voltar ao seu propósito principal, que é a oração.

Então, quando uma distração invadir a sua oração, sorria para ela, deixe-a passar e retorne ao foco que escolheu. Repita as palavras do salmo, leia mais uma vez a lição do Evangelho retorne à imagem de contemplação, continue meditando com a sua palavra escolhida. No final, as palavras que proferir com os seus lábios ou no seu coração, as imagens que contemplar e captar, as sensações que sentir ao rezar tornar-se-ão cada vez mais atraentes e logo você as achará mais importantes e agradáveis do que muitos deveres e obrigações que tentam resvalar na sua consciência espiritual. As palavras que vêm de Deus têm o poder de transformar a sua vida interior e nela criar um lar onde Deus reside alegremente.

Seja fiel.

O que importa é a fidelidade à oração. Fique com ela como uma disciplina da vida diária. Se escolher um tempo definido, um lugar especial e um foco único para rezar, então aos poucos o tédio arrefece, as distrações diminuem e a presença de Deus é encontrada. Quando aprender a rezar em certos momentos e lugares, e com um foco único, você poderá descobrir que é possível permanecer em atitude de oração e gratidão ao longo do dia. É o que São Paulo quer dizer ao afirmar: “Reze sem cessar”. É o que Jesus quer dizer quando chama a oração de “a única coisa necessária” (Lc 10,42).

Deixe-me oferecer uma oração a você enquanto continua a fazer a oração da sua vida e crê que Deus ajudará algum dia, concedendo o conhecimento de que começou a rezar sem cessar.

Senhor Jesus Cristo, misericórdia de mim. Deixe-me conhecê-lo como meu amoroso irmão que nada retém, nem mesmo os piores pecados, contra mim, mas que deseja me tocar em um terno abraço. Leve meus medos, suspeitas e dúvidas que me fazem impedi-lo de ser o meu Senhor e dê-me coragem e liberdade para aparecer despido e vulnerável à luz da sua presença, confiante em sua abismal misericórdia e desejando ouvi-lo em todas as horas e lugares. Amém.

Aprofundando-se: exercícios para direção espiritual

A disciplina da oração.

Convindo você a tentar seguir uma disciplina de oração dez minutos em um dia ou mais durante uma semana e depois discutir a sua experiência com o seu diretor espiritual ou grupo de orações.

1)      Simplesmente reserve uma hora e local específicos para “perder” um pouco de tempo sozinho consigo e com Deus. Quando e onde você rezará?

2)      Acrescente ao seu horário particular e lugar especial um foco único. Pode ser uma imagem, uma palavra, uma frase bíblica ou uma pequena prece mediativa que se repita.

3)      Se as distrações surgirem ou você se sentir ansioso ou sonolento, reconheça a distração – não a combata – e simplesmente retorne à sua imagem, frase ou escrita.

4)      Abrace o silêncio entre as repetições na oração. É assim que se cria espaço para Deus se apresentar.

5)      Às vezes, dentro do nosso horário, local e foco sagrados, Deus fala uma palavra simples para ouvirmos. Aprenda a ouvir a voz silenciosa e breve.

Muitas pessoas que praticam isso regularmente acabam descobrindo que não querem perder o seu horário de oração – ainda que não as satisfaça emocionalmente no momento. Elas podem ser distribuídas durante os dez minutos, mas retornam continuamente. Elas dizem que “algo está acontecendo comigo em um nível mais profundo que o meu pensamento.”

Tampouco eu sempre tenho pensamentos ou sentimentos maravilhosos ao rezar. Mas creio que algo esteja acontecendo, porque Deus é maior do que a minha mente e o meu coração. O mistério maior da oração é maior do que eu seja capaz de perceber com meus sentidos emocionais ou dons intelectuais. Creio que Deus seja maior do que eu quando resido – deixo-me ser abraçado – naquele lugar de oração. No final, ao fazer isso, realmente vivo uma vida muito espiritual.

Reflexão e diário

Que partes da sua vida você se sente tentado a ocultar de Deus?

Que pensamentos está tendo agora? Pare e os ofereça a Deus como uma oração conversacional.

Com que tempo, local e foco de oração você irá se comprometer nesta semana?

 

Texto tirado livro Direção Espiritual; sabedoria para o caminho da fé, de Henri Nouwen.

 

 

 

 

 

 

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