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Admiração diante de Deus

Enche-te de admiração diante de Deus que te fala e que não cessa de retomar o diálogo que interrompeste.

Sentes todos os dias a solidão de Adão no jardim do Éden: “contudo não encontrou para ele uma auxiliar adequada” (Gn 2,20). Como ele, ficar maravilhado quando um ser semelhante a ti te dirigir um olhar, um sorriso ou uma palavra que te arranque do desamparo na tua solidão. És feito para o encontro, o sorriso, o olhar, para te relacionares, para amares num amor durável. Como Maria na sua Anunciação ficou cheia de satisfação vendo-se amada por Deus, tu também fazes a experiência da plenitude do amor e de repente existes, quando és reconhecido e amado pelo teu irmão.

Será que ao abrires a Bíblia, para encontrares nela a Palavra de Deus experimentas a mesma surpresa? Não te assemelhas demasiadas vezes ao filho pródigo, de tal modo obnubilado pelos dons do Pai, do desejo de os consumir que já não reconhece o doador? Já não os acolhe como um presente ou um sinal do dom mais profundo que o Pai quer fazer de si próprio ao filho.

Podes levantar-te de madrugada, ou mesmo durante a noite, para orar: Deus já se antecipou na tua oração e é ele próprio que te pede para o acolheres na proposta de amor que te faz. Abrir o  livro da Palavra é deslacrar uma carta de amor dirigida a ti pessoalmente. Devias maravilhar-te sempre perante esse amor inquieto de Deus à procura do homem, à espera da sua mais insignificante resposta.

Não és tu que partes à sua procura mas é ele que não deixa de bater à porta do teu coração (Ap 3,20), para que lha abras e partilhes o banquete da sua amizade.

Deus não necessita de ti, está acima de tudo, é o Transcendente, em si próprio alegria, felicidade, amor, verdade e santidade e quer chamar-te a travar com ele um diálogo de amor para te comunicar tudo o que é. Tem mais fome e sede de ti do que tu tens dele. Quando fala não diz palavras no ar; pelo contrário, profere uma palavra que exprime o seu profundo. Quando Deus te fala, o mais importante não é o que tem para dizer, mas o fato de te falar. Sentes-te sempre maravilhado diante de alguém que te dirige a palavra porque vês nisso  o dom de uma pessoa que se exprime livremente, se comunica e se entrega. Como com Abraão, Deus faz-te partilhar do desejo de estabelecer uma aliança contigo. A sua palavra exprime e esgota o amor infinito que te tem. Fala apenas para te dizer: “Amo-te”

Nunca terás acabado de contemplar esse amor. Haverá dias em que te parecerá uma incrível loucura. Não de desencorajes, qualquer que seja o teu pecado, esquecimento ou infidelidade, pois é sempre Deus que dá os primeiros passos e retoma o diálogo que interrompeste. “Estando ainda longe, o pai avistou-o, enchendo-se de compaixão correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos”. (Lc,15-20)

Rezar é ficar abraçado ao Pai que se comove de compaixão diante da tua miséria. Mais: no íntimo da tua pobreza, descobre que Deus nunca deixou de te desejar. A verdadeira oração contemplativa nasce dessa admiração ante o amor trinitário.

Quando tiveres pressentido essa ternura de Deus relativamente a ti – já que nunca poderás compreendê-lo totalmente – emergirás um pouco de tua rudeza ingênua e o teu coração arderá no mesmo fogo da sarça ardente.

Texto tirado do livro de Jean Lafrance: Reza ao Pai no teu íntimo.

 

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