• #
  • #
  • #

Teologia da Gratuidade


Artigo

Teologia da Gratuidade

Leonardo Araújo Silva

 

TEOLOGIA DA GRATUIDADE

 

AUTOR: LEONARDO ARAÚJO SILVA

 

FILÓSOFO, FÍSICO E TEÓLOGO

 

 

A palavra cobrança é uma das mais usadas pela sociedade moderna como também foi no passado. De fato, nada é feito de graça, as coisas funcionam na base da troca. Uma análise dos modos de produção econômica que fizeram a história das organizações humanas nos mostra isso. Nos períodos antigos e, sobretudo, medieval a expressão da moeda era muito pequena ou nula, contudo havia o processo de troca de mercadorias. A mentalidade da cobrança não existe apenas quando se trata de economia, mas também de relações rotineiras do cotidiano. Sendo assim, nossa sociedade fica cada vez mais submetida a este tipo de atitude que, muitas vezes ultrapassa seu limite e conduz o ser humano a um desequilíbrio emocional. A cobrança acontece não somente do outro para comigo e de mim para com o outro, mas de mim para comigo mesmo e do outro para com ele mesmo. Como sempre me cobraram, também aprendo a me cobrar. Isso nos habitua a cobrar de Deus também. Não quero dizer, com isso, que quando se fala em cobrança existe somente um sentido negativo imbuído neste termo. Obviamente, numa sociedade habitada por seres com alto grau de racionalidade torna-se necessário a existência de leis que regulamentem as ações individuais e coletivas.

 

Quando lidamos com instituições religiosas, também nos defrontamos com a cobrança, percebendo, então, que ela não está presente somente na sociedade laica. Em nível religioso, isso pode se tornar muito mais nocivo do que em nível profano, pois consciente ou inconscientemente, é mais tranqüilo desafiar o mundo laical do que o mundo religioso. Uma eternidade de gozo ou de sofrimento me são possíveis de acordo com a resposta que dou às cobranças que me são feitas. O Tribunal da Santa Inquisição, criado pela Igreja Católica nos primórdios de sua história, bem como as penitências aplicadas aos lapsos que desejavam se reintegrar à comunidade, nada mais eram do que tentativas de livrar as almas dos pecadores do suplício eterno. Embora a Inquisição tenha sido um grande erro, sua estrutura se baseava em dar mais uma chance, mesmo que dolorosa a alguém que não respondeu adequadamente às cobranças que naturalmente eram impostas a todos. Os inquisidores pensavam que queimando a carne daquele pecador, estariam ajudando-o a salvar sua alma. Esta era a pena capital aplicada aos pecadores, mas havia outras penas mais leves pelas quais o pecador poderia passar.  A cobrança no discurso religioso é fruto de uma mentalidade de desvalorização pessoal e de não merecimento. Seres tão corruptos e pecaminosos precisam se expiar para encontrar-se definitivamente com Deus.

 

No período do Antigo Testamento, a cobrança e a punição estavam presentes de uma forma muito forte, a ponto de se aplicar pena de morte por causa da desobediência a um preceito religioso, como, por exemplo, trabalhar no sábado. Uma forma de tratamento muito rigorosa regia a vida daqueles povos e isto ia sendo transmitido ao longo das gerações. Isso explica a existência desses acontecimentos também no mundo cristão, uma vez que ele se originou do mundo judaico. Foi a mentalidade da cobrança que matou Jesus e vários outros, como também, é esta mesma mentalidade que faz com que nos matemos dia-a-dia, atingindo-nos do lado secular e do lado religioso.

 

Ocorreu uma renovação desta mentalidade no século XX dentro da Igreja quando aconteceu o Concílio Vaticano II, eliminando cobranças torturantes como o número de pecados mortais que um padre poderia cometer durante a celebração da Missa, a excomunhão aplicada aos sacerdotes que abandonassem a vocação, mesmo com consentimento do Papa, as regras matemáticas de palavras e movimentos que deveriam ser feitos pelos sacerdotes nas celebrações e, a diminuição, ainda lenta, mas progressiva do terror ensinado aos leigos sobre os destino final do homem. Com isso, alguns costumes foram mudando e mudando estão até hoje, mudança que não cessa e que deve cada vez mais se aproximar daquilo que Deus, de fato, é: gratuidade. Esta realidade sobre Deus está explícita na Sagrada Escritura, não é algo implícito, para ser percebido nas entrelinhas, mas explícito nos Evangelhos e nas Cartas dos Apóstolos, mas, infelizmente pouco absorvido pelas pessoas e pela comunidade.

 

Ao longo da história a Igreja Cristã se dividiu, surgindo outras confissões religiosas, algumas confiáveis e outras não. Estas igrejas cristãs não católicas sofrem do mesmo sintoma que chamamos de síndrome da cobrança em nível mais rigoroso; algumas fazem afirmações sobre a perda da salvação para os suicidas, outras dizem que os infiéis são castigados por Deus e perdem todos os seus bens e também sua saúde. No fundo, a cobrança se torna um grande mecanismo de controle, pois se um pastor diz que quem der mil reais para Jesus vai receber cem vezes mais do que isso, será recompensado por Ele, um poderoso mecanismo de controle está sendo usando sobre seus seguidores. Quem pagar mais recebe mais “graça” e, obviamente, quem pagar menos recebe menos “graça”.

 

Algo percebido tanto em católicos como em evangélicos e outros grupos religiosos é a promessa, uma atitude pela qual alguém quer obter uma graça de Deus. As promessas variam de coisas simples até coisas absurdas. Certa vez, em um encontro que pregamos no carnaval, uma senhora dizia que para obter algo de Deus precisava judiar de si mesma. Assim, as pessoas vão lidando com Deus da mesma forma que lidam com o mundo.

 

Estas atitudes nos mostram com muita clareza que religiosidade e espiritualidade se distanciam bastante dentro das pessoas e das comunidades religiosas. Uma vivência unicamente religiosa, pode conduzir a estes e muitos outros desvios de comportamento, uma vez que o demasiadamente religioso se subordina a regras e mais regras, realizando um contato com Deus muito aquém da expectativa espiritual. Por isso há tantas dúvidas infundadas, como: é pecado o aparelho de som da igreja ficar guardado em minha casa? E o que seria pecado na mentalidade dessa pessoa? Ou, como: é pecado desligar o rádio na hora de um programa religioso? Também por isso há atitudes infundadas como tomar banho com roupa por ser pecado ficar nu, ou enfiar a camisa dentro da calça com varinha benta para que a mão não encoste nos órgãos genitais.Existe muita coisa a se transformar no coração das pessoas para que os processos de autopunição sustentados por uma religiosidade e por uma tradição milenar equivocadas sejam banidos de vez do ser humano.

 

Uma das passagens do Evangelho de Mateus fala que os discípulos subiram na barca e Jesus lhes disse que depois os encontraria, pois se afastaria um pouco para rezar. A oração de Jesus se prolonga até a quarta vigília da noite, ou seja, entre três e seis da manhã. Enquanto isso os discípulos estão no barco à sua espera e, como o barco estava bem afastado da margem, Jesus caminha sobre as águas até eles. Vendo Jesus, todos se atemorizam, como um homem poderia fazer aquilo? Nadar é bem diferente de caminhar sobre as águas.

 

Tranqüilizando-os, Jesus se dá a conhecer e Pedro pede para ir até Ele caminhando sobre as águas. Jesus manda-o vir e ele vai, mas no momento em que um vento bate em suas costas ele se atemoriza e afunda. Pedro grita por Jesus e Ele o socorre, depois entra na barca com eles. Nesta passagem Jesus ensina a diferença entre espiritualidade e religiosidade. Sua espiritualidade o leva a conversar com Deus sem ver o tempo passar e quando assusta, o dia já está quase chegando. Andar sobre as águas significa andar sobre as forças do mal, deixá-las debaixo dos pés, impedir que elas subam, ordenar que fiquem calmas. Este poder é dado pela vivência da espiritualidade, pois através dela, o entendimento de Deus se faz com clareza em nosso interior e se torna mais fácil superar os obstáculos. Pedro demonstra sua religiosidade, mas sua espiritualidade está fraca, o mal consegue tragá-lo e o leva ao desespero. A advertência de Jesus é: homem de pouca fé... Nem sempre uma religiosidade rigorosa significa fé, mas a espiritualidade profunda sim. Dentro da espiritualidade não nos preocupamos com tempo, com dia ou com hora, mas com a presença de Deus. O que Jesus dizia ao Pai? Fórmulas? Salmos? Pouco provável. Mas o que com certeza Ele dizia era a profundidade do seu ser. Aqui estou diante de Deus e Deus diante de mim. O que temos para falar um ao outro? Diante de Deus torna-se mais importante ouvir do que falar. O que importa é fazer acontecer um encontro de amigos. Assim, o tempo não passa, a pressa não existe, a rotina é quebrada.

 

O encontro com Deus é pura gratuidade, como também tudo o que ele dá. Se preciso, peço; se recebi, agradeço; se estou alegre, festejo; se estou triste, choro. Não preciso dar nada em troca, só preciso querer viver este momento. Quero rezar, então rezo; quero falar, então falo; quero calar, então calo. Para o encontro com Deus não preciso pagar passagem, não preciso aguardar na fila, não preciso tomar banho; só preciso me abrir a Ele. Então entenderei a gratuidade de Deus. A palavra cobrança não existe em seu dicionário. Deus vai te cobrar é um termo humano e não divino. Deus chama, pergunta, oferece e respeita a vontade de todos.  A salvação é de graça, não é comprada, nem conquistada. Assim, tudo que vem de Deus também é de graça. Deus não nos deve nada e não devemos nada a Ele, nem mesmo nossa vida, porque ela nos foi dada de graça, ela é uma dádiva e não um empréstimo.

 

Se tudo que vem de Deus é gratuito, a encarnação do Verbo também se deu por pura gratuidade e seu sofrimento e glorificação, também foi pura gratuidade. A gratuidade entre Deus e o homem não significa laxismo, mas amadurecimento espiritual. Este é o ponto central que o discurso religioso precisa atingir. Somos uma comunidade religiosa, ou uma comunidade religiosa e espiritual? A espiritualidade conduz à liberdade plena, pois nos coloca em contato com a gratuidade de Deus.  Isso nos faz compreender que, se tenho que ir à missa aos domingos, não estou obrigado a assistir duas missas neste domingo porque domingo passado não pude ir; ou, se por decisão do conselho desta comunidade devemos rezar dois rosários na semana, também não estou obrigado a rezar três rosários nesta semana porque semana passada só rezei um. Da mesma forma se neste domingo assisto a duas missas, não estou com crédito para domingo que vem e por isso não irei; como também, se rezei três rosários esta semana, não estou com crédito para a próxima semana, na qual, por isso, posso rezar apenas um. A relação de gratuidade entre Deus e o homem é mútua, ou seja, nenhum tem crédito ou débito com o outro. Assim, tudo o que faço para Deus, é feito por pura gratuidade e tudo o que Ele me faz é por pura gratuidade.

 

Com o passar do tempo tudo evolui, até mesmo a religião que sempre se diz pronta. Na verdade, o que está pronto são os dogmas, mas a maneira de compreendê-los não. Neste século em que vivemos, as Igrejas Cristãs têm em suas mãos este desafio:  preocupar-se mais com o crescimento espiritual e menos com as regras nas quais sempre se embasaram. Uma espiritualidade sadia garante uma vida sadia, concordando com as palavras de Jesus que dizia que veio para os doentes, pois são eles que precisam de saúde. Como absorver esta espiritualidade? Nada melhor do que a meditação profunda dos Evangelhos, onde tesouros estão revelados, mas podem se tornar escondidos quando não damos atenção a eles. A passagem dos vinhateiros da última hora em Mateus 20 também dá um grande ensinamento de gratuidade, quando o patrão dá a todos uma moeda de prata independentemente do período que trabalharam. A moeda de prata é símbolo da Graça que todos experimentam no trabalho pelo Reino, mas por incompreensão da Palavra, alguns se acham mais ou menos merecedores do que outros, enquanto, na verdade, por sua gratuidade, Deus faz de todos iguais, não desmerecendo ninguém.

 

A tarefa da religião de colocar no coração das pessoas a Teologia da Gratuidade não será fácil, uma vez que as relações humanas não acontecem neste nível e, mesmo muitos líderes religiosos não têm esta semente em seu coração, pois o rigor religioso fala mais alto e abafa o crescimento espiritual, algo que parece contraditório mas, de fato, ocorre. Então, muitas perguntas podem surgir: Como atingir a maturidade espiritual? Como saber que a atingimos? Seria possível chegar ao mesmo nível de espiritualidade vivida por Jesus? Será possível retirar de minha relação com Deus a cobrança imposta pelo mundo e ser eu e Ele uma relação de pura gratuidade? Obviamente após dois milênios de cristianismo antecedido por um milênio e meio de judaísmo vivenciados na ótica da cobrança não será em uma década ou mesmo em um século que as coisas vão consertar, mas é preciso começar agora, sem perder um momento sequer, pois estaremos buscando, assim, a perfeita relação com Deus, capaz de nos fazer caminhar sobre as águas sem afundar, mesmo que o vento esteja forte, mesmo que o mar seja sombrio e mesmo que a noite seja escura. Por pura gratuidade, é Deus quem me protege e, por pura gratuidade, aceito sua proteção. Por pura gratuidade Ele me fala e eu o escuto, como eu lhe falo e Ele me escuta e, por pura gratuidade, sinto-me livre para ser quem sou, para viver esta vida e para passar à outra quando o momento chegar.

Leonardo Araújo Silva é Filósofo, Físico e Teólogo Comunidade Raízes de Jessé.

Voltar
 

..........