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A Graça da Criação

1 - Decisão humana de romper com a harmoniosa ordem da criação.

1.1 - Criação na Graça.

A obra da criação foi contemplada pelo próprio Criador que concluiu ser tudo muito bom, segundo Gn 1, 31. Essa é uma feliz conclusão, pois os frutos da beleza não se encontram somente na eternidade, mas também na realidade histórica e temporal advinda da própria vontade eterna.

Logo, a criação é repleta de harmonia, já que sua existência é sustentada pela Graça que desconhece limites de atuação. Igualmente envoltas pela Graça são todas as criaturas que participam deste magnífico projeto do Criador. Em momento algum Ele subtraiu-a de sua obra, pois se assim o fizesse ela não mais existiria.

A criação, portanto, teve seu ponto alfa determinado pela Palavra Ordenadora de Deus e terá seu ponto ômega determinado pelo mesmo Senhor do qual tudo surgiu.

Tudo isso constitui a meta do mundo, a finalidade para a qual ele existe, o fim-meta, fim-plenitude que estabelece uma comunhão total entre o Criador e a criação.

Onde atua a Graça tudo se volta para Deus e nada d’Ele se subtrai. A Graça é o próprio Deus e não algo separado d’Ele. Portanto, Deus se presentifica na história para conduzi-la à sua plenitude. Em Deus a história é fonte de Graça e, no suceder do tempo, Ela acontece a fim de orientá-lo para Ele.

 

1.2 - O homem e a liberdade moral.

O único ser histórico dotado de liberdade moral é o homem e, através dela, ele pode escolher seu caminho. Sendo assim, sua opção poderá ser continuar mantendo a harmoniosa ordem da criação, como poderá ser a ruptura com ela e, portanto, com o próprio Deus, com a própria Graça.

A criação fala de Deus e exprime o sentimento mais profundo que d’Ele advém: o amor. A opção humana é, pois, muita clara e se direciona para o amor ou para o desamor, sendo que o primeiro é comunhão, o segundo é rivalidade.

Logo de início, a Escritura declara que o homem rivalizou-se com Aquele que é a causa de sua vida e rivalizar-se com a vida é escolher a morte. Este processo destrutivo assumido pelo ser humano no íntimo de sua liberdade é o que a Escritura denomina de pecado.

Pela opção pecaminosa, o homem rompe com a harmonia da criação e passa a agredi-la. Começa, assim, a cultivar, no tempo, realidades que jamais existiram na eternidade, vias que conduzem à morte, à negação do existir.

Contrariando o projeto divino, o homem opta pelo pior e coloca em cheque a sua vida. Desejando ser independente, sufoca as sementes da eternidade que, lançadas no tempo, levá-lo-iam ao auge da plenitude. A opção mortal das origens lançou seu veneno ao longo da história, de modo que as gerações, inconscientemente influenciadas, não se libertaram das seqüelas da escravidão, tornando-se vítimas do  pecado e da morte.

Entretanto, no tempo acontece a mudança, não há realidades prontas e acabadas, mas a dinâmica da vida conduz à transformação. A Graça eterna, atuante no tempo, jamais se deu por vencida e, encarnando-se na história, renovou a existência ferida da humanidade, confirmando a supremacia da obra da Graça.

 

1.3 - O projeto da Salvação.

O Evangelho de João em Jo 1, 14 diz: ”E o verbo se fez carne e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto ao Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade”.

Deus não se contenta com a escolha negativa do homem e, por isso, envia-lhe a Salvação, na pessoa de seu divino Filho; Aquele que, poderosamente, reafirma a harmonia da criação e transmite as sementes da vida àquele que um dia optou pela morte.

Enfrentando a própria morte, ou seja, antecipando-se ao homem dentro do abismo no qual ele se jogou, resgata-o de lá e fecha suas portas.

Aquele que é eterno assume, em seu próprio ser, as condições do tempo e torna-se homem como nós. Apenas uma diferença marca sua realidade: a ruptura com a harmonia da criação jamais se verificou no elo de suas opções, o compromisso com a morte n’Ele não existia. Aquele que quisesse segui-lo tinha como condição a rejeição da morte e a aceitação do dom gratuito que desde o início se derramou na humanidade: a Graça, o próprio Deus. Através de todas as suas ações salvíficas, Jesus recupera e renova as bênçãos que a humanidade tinha banido de sua existência, distanciando-se, assim, da graciosidade plenificante que a comprometia com a eternidade.

O compromisso eterno é a vida, pois se ela não existe, também não há eternidade. Pela morte o homem escolhe o vazio que não tem sentido; com Jesus ele refaz seu compromisso de vida e sustento de sua existência.

A ação salvífica de Jesus não é limitada em seu tempo, mas encontramos nela a manifestação daquilo que é eterno. O eterno não conhece limites nem barreiras, atua incessantemente e transmite ao homem dádivas que não passam, que não envelhecem, mas permanecem no seu ser e infundem a ele uma vida nova.

Aceitar ou rejeitar Jesus, ainda será fruto da liberdade moral de cada um. Entretanto, o chamado é para todos e ninguém está excluído da renovação na Graça eterna que é Deus e de comungar com a perfeita união Criador-criatura, novamente estabelecida pela ação salvífica de Jesus.

1.4 - Morte como fenômeno restrito ao tempo.

A morte, do modo como a conhecemos é algo misterioso e inaceitável, um desligamento das funções vitais e do mundo. O homem, como ser espaço-temporal, passando por ela faz uma experiência inédita.

O fenômeno que, comumente, é denominado de morte constitui-se na conclusão de um processo temporal, através do qual mudamos ao longo dos momentos sucessivos.

O que importa, entretanto, é perceber que o fenômeno da morte é estritamente limitado ao tempo. Ela não mais existe quando se penetra na eternidade. Para que haja eternidade faz-se necessário a vida, pois a morte iguala-se ao nada que é alheio à existência. Existir é característica da vida e se a eternidade é a mais plena forma de existência, ela só pode estar repleta de vida.

Morrer é, portanto, cruzar a linha divisória que separa o tempo e a eternidade. A morte sela a decisão radical do homem para Deus ou contra Deus. Enquanto está submetido ao tempo, a mudança é a realidade que se verifica em todos, mas depois da passagem para a dimensão eterna, a mudança não acontece mais, pois na eternidade tudo é ato, não há presença de potência. Neste momento, confirma-se definitivamente a opção escolhida dentro da história. O contato com o Criador torna-se inquebrantável e se fará em forma de plenitude, amadurecimento, pelo sim; ou desgraça, pelo não. O homem, envolvido pela eternidade, está dentro do próprio Deus, pois Deus e eternidade se coincidem. Se sua opção histórico-temporal foi a eternidade, agora ele se deixa envolver pela completa Graça que antes já possuía, mas agora lhe é consumada; seja como amadurecimento ou plenitude, o importante é que ele se deixa envolver e, se o amadurecimento se confirma, é sabido que ele conduz à plenitude, pois amadurecimento na plenitude é a plenitude comunicada por Deus a seus filhos. Amadurecimento pleno não se identifica a processo, pois isso não é conhecido em dimensão eterna, mas presença efetiva junto de Deus pela qual as fraquezas humanas são totalmente eliminadas e a cristificação da criatura se torna proeminente.

Entretanto, quando o homem se decide contra Deus, na mais lúcida liberdade moral e sela esta decisão na morte, a eternidade também o envolverá mas ele não se deixará envolver. Ele não estará imerso na harmonia que desde o princípio regeu a ordem da criação, mas compactuado com o caos que é a ruptura com Deus. Estando diante de Deus e envolto pela sua Glória, não conseguirá encará-la, já que optou pelo contrário. Deus ser-lhe-á um estranho, tanto no tempo como na eternidade, pois, infelizmente, este homem nunca o acolheu. Deus jamais rejeitou tal homem em momento algum de sua história e nem na dimensão eterna na qual Ele ainda insiste em agraciá-lo, mas a liberdade é a última palavra e nela, nem Deus interfere. A mais terrível de todas as desgraças é, pois, estando diante da vida plenificada da eternidade, fechar os olhos para se comprometer com a sombra inextinguível da morte.

 

1.5 - Juízo universal e particular.

O juízo ou pensamento de Deus sobre a ordem da criação é a comunhão e harmonia totais. Este é o intuito divino estabelecido no momento alfa da criação e que nunca foi modificado, pois a realidade de Deus é imutável. O juízo do momento alfa foi, portanto, revelado ao homem para que este o entendesse e velasse por ele. Tendo escolhido o contrário, Jesus resgatou o pensamento de Deus no homem para que, em perfeita comunhão, ele optasse novamente pelo amor.

O momento alfa da criação é o encontro harmonioso entre o tempo e a eternidade, unidos em comprometimento total com a obra do amor. A mesma realização se encontra também no momento ômega, pelo qual a tenda de Deus se estabelecerá no meio dos homens. Este é o chamado juízo universal, onde e quando, através da união entre alfa e ômega, princípio e fim, Deus confirmará às suas criaturas a beleza e seriedade da harmonia perfeita decidida desde o princípio da existência do mundo. Então, não haverá mais luto, nem pranto, nem dor, nem devastação, pois o mistério de Deus sairá de seu silêncio e se dará à toda criatura. Cessa-se o tempo e a história, não no sentido de destruição, mas de envolvimento total pela glória da eternidade. A criação volta-se para Deus que um dia a originou: de Deus saiu e para Deus retorna. Alfa e Ômega se encontram no mistério do próprio Deus. A Palavra Ordenadora do princípio é a mesma do final. Princípio e fim não são realidades separadas, mas elo de união que envolve inteiramente cada momento da história do universo, já que tudo pertence ao Senhor. Em suma, Deus é o alfa, Deus é o ômega, sua Palavra perpassa o tempo e a história e, enquanto tudo fenece, ela permanece fazendo a ligação entre o tempo e a eternidade.

O momento ômega é a consumação final desta ligação e, neste momento, o pensamento de Deus sobre o universo ter-lhe-á penetrado pela glorificação. O momento em que tudo cessará: as línguas, as profecias, a ciência, mas o amor, sentido e causa desta gloriosa síntese, permanecerá.

É este também o momento em que se dá a ressurreição dos mortos. No momento em que tudo passa à eternidade os mortos ressuscitam, pois eternidade é vida e nela não existe morte. O corpo, semeado na corrupção, veste-se de incorrupção (cf 1Cor 15, 42.53). É corpo glorioso, transformado, ressuscitado pela presença da eternidade. O corpo biológico baixado à sepultura transforma-se em corpo glorioso erguido ao céu.

A morte do homem marca sua passagem para a eternidade, a glorificação do cosmos marca a transformação gloriosa de seu corpo mortal. No momento da morte, sua pessoalidade atinge aquilo que é eterno, o aglomerado celular que constituía seu corpo sofre total degeneração e se consome. Neste momento, o homem recebe seu juízo particular, ou seja, o pensamento de Deus sobre ele. Este pensamento de Deus sobre o homem é a vida, portanto, em seu juízo particular todo homem escuta de Deus: Eu quero que você tenha vida. Tal fato se verificará ou não pela decisão radical pelo homem assumida no momento de sua morte e, portanto, entrada na eternidade. Tendo escutado seu juízo particular, o homem participará também do juízo universal de Deus e, vendo a glorificação do cosmos acontecer, verá também ser glorificado seu corpo mortal e corruptível que, em comunhão com a glorificação do universo, é também glorificado para junto de Deus. O aglomerado celular perdido no tempo torna-se, no momento ômega da criação, o corpo glorioso incorruptível que, com tanta ansiedade, sonhamos receber. Nele não existem mais as limitações, a necessidade e a doença, mas somente Graça sobre Graça. Neste momento, cada homem fará a experiência de Jesus ressuscitado que deixou o sepulcro vazio e destruiu definitivamente a morte.

O juízo de Deus é a vida, a resposta do homem é pessoal, a felicidade a ele é oferecida, basta um sim dado no íntimo do coração para estabelecer o mais profundo diálogo de amor que a humanidade já conheceu. Uma profunda união existe entre Deus e sua obra. Ele não está surdo e nem cego ao nosso clamor, mas em comunhão amorosa com cada ser criado, penetra no tempo e nos envolve totalmente com as bênçãos santificantes da eternidade.

 

Leonardo Araujo  Silva

Membro  co-fundador da Comunidade Raízes de Jessé

 

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