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Vida eterna e vida passageira

Fascínio do tempo e plenitude da eternidade.

 

Sempre aprendi, em minha infância, que o homem abriu mão da imortalidade física quando cometeu o pecado original, ou seja, se este não tivesse ocorrido, a situação paradisíaca já seria vivenciada desde o início. O pecado original condenou o homem à uma vida de sofrimentos e à morte. Em meio a isso havia um consolo da vida eterna que seria vivida por aqueles que fossem salvos. A salvação foi trazida por Jesus e segui-lo seria a condição para alcançá-la. Além de pecar, o homem provocou a vinda do Filho de Deus para salvar a todos.

O parágrafo acima demonstra uma visão muito estranha sobre o Mistério de Deus. Em primeiro lugar, quero ressaltar que Deus é Mistério mas não estranho. O Mistério não é o desconhecido, mas aquele que está próximo. As palavras de Jesus se orientaram neste sentido repetidas vezes: “ o Reino dos Céus está próximo”. Isto equivale a dizer que Deus está próximo e quanto mais nos abrimos para o Mistério mais Ele se revela a nós. A estranheza com que Deus é tratado nos faz entender errado nossa própria doutrina e pensamentos indevidos começam a ser cultivados sobre Ele.

Muitas vezes já me perguntei: "se existe a promessa da vida eterna, por que precisamos passar por uma experiência de vida passageira suscetível de tantos sofrimentos? Por que o pecado original, cometido por apenas duas pessoas, teria que condenar toda a humanidade à experiência do sofrimento e da morte?"

Em primeiro lugar, vamos falar um pouco deste pecado original tão famoso e tão forte que, segundo o que aprendemos, deixou-nos manchados desde o nascimento, mancha apagada pelo batismo. Na verdade, o pecado original não é uma mancha, é a vontade de competir com Deus que um dia surgiu no coração humano. Em todos os momentos vemos pessoas desafiando Deus e querendo competir com Ele, querendo vencê-lo em uma disputa, querendo provar-lhe que por Ele foram injustiçadas, que não foram compreendidas, que não foram amadas e que, portanto, foram deixadas na orfandade. O desejo de manipular Deus faz parte do pecado original, querer um Deus do meu jeito, que só faz aquilo que quero, que me prioriza sobre as demais pessoas. O pecado original nos faz conceber um Deus que é como nós, um Deus limitado aos nossos sentimentos, um Deus que serve aos nossos desejos egoístas.

Aprofundando mais um pouco vamos entender que o pecado original não tem nada a ver com a morte física, ou seja, com ou sem pecado original a morte física existiria, como existe. Com isso quero dizer que Deus não criou o homem para ser eterno na Terra porque a vida na Terra é uma vida passageira. Na verdade, Deus criou o homem para fazer a experiência do tempo e da eternidade, pois a eternidade será mais plena se for enriquecida pela experiência do tempo. Isso nos mostra que quando estiver na eternidade o homem será completo porque teve a chance de passar pelo tempo, viver a história, passar por processos de descoberta e crescimento que somente no tempo podem existir. Uma eternidade é uma eternidade; uma eternidade enriquecida pelo tempo é uma plena eternidade. Assim, a promessa de vida eterna que Deus faz ao homem é uma promessa de plena eternidade e para isso se realizar, torna-se necessário a passagem pelo tempo. Logicamente a passagem pelo tempo tem sofrimentos advindos de fatalidades ou de escolhas errôneas conscientes e inconscientes. Por que um tempo que produz sofrimento? Corrigindo, o tempo não produz sofrimento, a experiência do tempo passa pelo sofrimento, mas todo sofrimento pode ser superado. A experiência do tempo nos dá a chance de lutar e superar os gigantes que nos desafiam e, quando alguém diz “não sou nada”, deve se lembrar que é criatura de um tempo que lhe dá a oportunidade de ser grande, forte e vitorioso, um tempo que vai fazer-lhe viver uma plena eternidade. Assim, seres puramente eternos, como os anjos, não são tão completos como o homem, pois não foram enriquecidos pelo fascínio do tempo. Eles têm a eternidade, mas não têm uma plena eternidade. Esta só é conferida aos que, antes da eternidade, viveram o fascínio do tempo.

A encarnação de Jesus não é uma tentativa desesperada de salvar o homem assombrado pelo pecado, mas um ato da mais pura liberdade de Deus, uma decisão que antecede a culpa humana, um ato de amor de um Deus que, sendo eterno, vem viver o fascínio do tempo, o tempo que Ele quis fazer existir para dar plenitude à eternidade.

Leonardo Araújo  Silva

Membro  co-fundador da  Comunidade  Raízes de  Jessé

 

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