• #
  • #
  • #

Aspectos do diálogo entre fé e ciência


Artigo

Aspectos do diálogo entre fé e ciência

Leonardo Araújo Silva

 

 

A RELAÇÃO ENTRE EUCARISTIA E PARTÍCULAS ELEMENTARES COMPREENDIDA À LUZ  DA MONADOLOGIA DE LEIBNIZ.

 

Uma reflexão sistemática sobre a conexão entre ciência, filosofia e teologia.

 

 

    1. O extenso e o inextenso no pensamento grego.

     

 

Nos primórdios da História da Filosofia, os pré-socráticos esforçavam-se para descobrir qual era o princípio constitutivo de todas as coisas. Percebendo na natureza, a presença de quatro elementos fundamentais: a terra, a água, o ar e o fogo, iniciaram sua investigação tentando concluir qual destes elementos era o mais importante. A especulação sobre o assunto não encontrou resposta unânime entre os filósofos. Numa fase mais avançada da investigação cosmológica dos pré-socráticos, os filósofos sustentavam que o princípio constitutivo de todas as coisas não era algo percebido pelos sentidos, mas atingido somente pela intelecção.

 

Anaxágoras de Clazômenas sustentou a idéia de que a realidade seria constituída por sementes divisíveis de forma semelhante até o infinito. Essa divisão infinita é uma divisão contínua que nunca atinge o limite porque ele não existe. Sendo assim, a divisão infinita nunca chega à indivisibilidade e, consequentemente, jamais conseguirá atingir o nada. Este só seria atingido se a divisão chegasse ao fim, o que implicaria no vazio absoluto e na total ausência do ser. As sementes constitutivas da realidade são divididas em partes sempre iguais e, portanto, chamadas por Anáxagoras de homeomerias, ou seja, aquilo que se divide semelhantemente. As homeomerias são uma constatação racional de que as sementes divisíveis que constituem a realidade são extensas, pois são infinitamente divisíveis. Se a divisão nunca chega ao fim, o inextenso não pode ser atingido, ele é somente uma idéia mas não uma realidade. A realidade, por mais divisível e por menor que seja, sempre é extensa.

 

Todavia, o pensamento sobre o inextenso não demorou a surgir na História da Filosofia. Os atomistas são responsáveis por esta idéia. Leucipo e seu discípulo Demócrito defenderam a ideia do átomo, a partícula indivisível responsável pela constituição de todas as coisas. O átomo não pode ser dividido, como indica seu próprio nome. Sua indivisibilidade confere a ele a qualidade da inextensão. No átomo a divisão chegou ao final porque não há como se dividir mais. Contudo, o átomo não é sinônimo do nada e nem do vazio. No pensamento dos atomistas o ser só pode vir do ser e não do nada, como pensava Heráclito. Nascimento e morte significam agregação e desagregação de átomos, o inextenso que está no ser e não no nada. Compreende-se assim, que quem nasce não vem do nada e quem morre não vai para o nada, mas passa por movimentos sucessivos da inextensão para a extensão e da extensão para a inextensão.

 

Podemos perceber que, segundo o pensamento dos atomistas, o inextenso pode originar o extenso e, portanto, o extenso só pode existir porque, antes dele, existiu o inextenso. Analisando esta relação entre extenso e inextenso, torna-se mais fácil responder a pergunta feita no início da História da Filosofia: porque existe o ser e não o nada? Se a extensão não existe, existe a inextensão que não se identifica ao nada, uma vez que pode agregar-se para constituir a extensão divisível que, quando se desagrega na indivisibilidade não caminha para o nada, mas para o ser em fase de inextensão.

 

Tanto Anaxágoras como Demócrito rejeitam a idéia de o não-ser gerar o ser, pois o ser só pode vir do ser, uma vez que o não-ser é o nada e do nada não vem nada. Contudo, os dois se diferem na compreensão do extenso e do inextenso dentro do ser, pois se para Anaxágoras, somente o extenso existe e o inextenso seria a identificação ao nada, para Demócrito tanto o extenso como o inextenso estão dentro do ser, já que o princípio constitutivo de todas as coisas só pode ser inextenso, indivisível, e se ele constitui todas as coisas não pode estar no nada, mas no ser, pois o ser gera o ser e o nada não gera nada.

 

O pensamento grego constitui o marco inicial para a compreensão do extenso e do inextenso, conceitos de suma importância para entender bem a nova teoria atômica e os dogmas católicos sobre a Eucaristia, a Ressurreição e a Eternidade. Todavia, antes de chegar nas análises acima citadas, é necessário aprofundar a análise do extenso e do inextenso, feita na Filosofia Moderna por Leibniz em sua Monadologia.

 

 

 

    2. A inextensão na Monadologia.

     

 

Enquanto o pensamento grego privilegiou a Metafísica como centralidade filosófica, na Idade Moderna a situação foi diferente. Colocando em dúvida a possibilidade do conhecimento, os filósofos voltaram suas atenções para a Epistemologia, objetivando investigar a possibilidade e a verdadeira fonte do conhecimento. Entre os pensamentos epistemológicos, destacaram-se o racionalismo, o empirismo e a filosofia transcendental. Foi dentro do racionalismo que surgiu a figura de Leibniz, filósofo e matemático alemão do século XVII. Embora a Metafísica não fosse mais o centro da Filosofia, Leibniz desenvolveu, juntamente com a Epistemologia, uma Metafísica em sua Monadologia.

 

A Monadologia é a teoria das mônadas. Este conceito pode ser entendido como um aprofundamento do pensamento pré-socrático, sobretudo em relação à teoria atomista. Leibniz concebe a mônada como substância indivisível e, portanto inextensa. Ser inextenso significa ser ilimitado, não estar preso ao tempo e nem ao espaço. A Monadologia torna-se, assim, a expressão moderna do atomismo grego. Além de ser inextensa, cada mônada é única, não existem duas mônadas iguais. A mônada é uma realidade metafísica apreendida pelo intelecto e não pela experiência. Ser apreendido pela experiência significa ser extenso e, mesmo que o extenso admita uma divisão infinita, ele nunca se converterá em inextenso. Assim, a divisão dos seres em partes cada vez menores não fará com que eles atinjam o estado de mônada. Todavia, o ser não tem como ser prescindindo da mônada. Há, então, uma dependência do ser em relação à mônada, mas não uma dependência da mônada em relação ao ser.

 

Se compararmos a teoria das homeomerias com a teoria das mônadas, perceberemos que se torna mais fácil uma aplicação da primeira na descrição do real, uma vez que as homeomerias atingem o estágio de divisão infinita, mas nunca deixa de ser extensa. Compreender o extenso como semente do próprio extenso não é algo problemático. Por outro lado, quando Atomismo e Monadologia, sobretudo esta, faz uma explicação do extenso como resultado de uma ação do inextenso, a complexidade fica evidente, pois como combinações do inextenso podem resultar no extenso? Seria o mesmo que dizer que as combinações do zero resultariam em números naturais maiores que zero. Mas o próprio conceito da mônada a define como realidade metafísica substancial, algo que não pode ser explicado experimentalmente porque é pura intuição. Para Leibniz, a realidade da mônada é tão óbvia como 2 + 2 = 4. A Monadologia é uma nova explicação do objeto de conhecimento dos pré-socráticos quando querem responder à pergunta: qual é o princípio constitutivo de todas as coisas? Para Anaxágoras são as homeomerias, para Demócrito é o átomo, para Leibniz é a mônada.

 

Leibniz construiu uma Monadologia pura. Conceitos puros do entendimento tornam-se complexos quando analisados em sua idealidade. Com o avanço dos séculos já é possível fazer uma Monadologia aplicada no campo da ciência e até mesmo no campo da religião, como suporte para o entendimento de conceitos abstratos da Revelação. Podemos dizer que a Monadologia é o meio para entender como partículas elementares, que são inextensas, influenciam tão fortemente o extenso, podendo realizar coisas jamais sonhadas até então. Assim, podemos entender a Física de partículas, ao mesmo tempo, como uma Física pura e uma Monadologia aplicada. Mais uma vez, a Filosofia fornece fundamentação à investigação científica e, surpreendentemente, uma fundamentação vinda da Metafísica, tão criticada na Idade Moderna e Contemporânea.

 

A moderna teoria atômica descreve de forma cada vez mais profunda a divisão infinita do extenso e a indivisibilidade do inextenso, descrição cuja precisão conceitual estabelece-se nas investigações passadas sobre o extenso e sobre o inextenso, sobretudo as investigações colocadas pela Monadologia de Leibiniz.

 

A interpretação do dogma dentro da Teologia Bíblica, da mesma forma, adquire maior precisão conceitual se auxiliada pela investigação da Monadologia, uma vez que o dogma se relaciona tanto com o extenso como com o inextenso. Estes dois conceitos têm sua utilidade demonstrada tanto no discurso científico como no religioso, ratificando a aplicabilidade da Monadologia nos dois campos.

 

 

 

    3. Inextensão das partículas elementares e origem do extenso na divisão infinita do tempo e na divisão infinita do espaço.

     

 

O item anterior demonstra a compreensão dada pela Monadologia ao extenso e ao inextenso. Não há como fugir disso, uma vez que a realidade é formada tanto de um como de outro.  Assim, quando dizemos partículas elementares, estamos falando do inextenso e, quando dizemos tempo, espaço, divisão infinita, estamos falando do extenso.

 

Assim como a mônada, as partículas elementares são indivisíveis e, portanto, não definidas pela extensão. No princípio, só havia o inextenso e dele surgiu a extensão. Mas se o inextenso é inextenso, como de algo inextenso pode surgir aquilo que é extenso? A teoria das partículas demonstra que o elétron é a única partícula inextensa de vida longa, as demais têm suas vidas reduzidas a milésimos de segundos. Contudo, existem duas partículas elementares de vida curta que, quando unidas, geram partículas não elementares de vida longa. As partículas elementares updown se unem para originar o nêutron e o próton. A partir do momento que se unem deixam de ser inextensas para serem extensas. O elétron continua inextenso, pois sua inextensão lhe basta. Mas no caso das partículas formadoras do núcleo atômico, temos a inextensão originando a extensão que lhe dará vida longa, assim como ocorre com o elétron.

 

Podemos perceber, então, que no princípio tudo era inextenso, mas para que a criação acontecesse, seria necessário que o inextenso originasse o extenso, contrariando o resultado natural de geração da inextensão pela  ocorrência da própria inextensão. Contudo, houve uma possibilidade de combinação de inextensos que resultou em extenso e, portanto, no início do tempo e do espaço.

 

Tempo e espaço são, portanto, possibilidades de divisão infinita do extenso sem que ele atinja o inextenso, pois uma vez extenso, mesmo que seja infinitamente dividido, jamais retornará ao inextenso.  O elétron, como inextenso, não é definido pela extensão e não pode ser dividido e nem multipicado. Tempo e espaço, que podem ser grandes por sua atuação e multiplicação e também pequenos, por sua infinita divisão, serão sempre definidos pela extensão.

 

Em relação à divisão do espaço, podemos trabalhar em escalas micro e macroscópicas. Tomamos o metro como padrão e, a partir dele multiplicamos e dividimos sem nunca chegar ao fim. Assim, tomando o metro por 101, teremos o decâmetro 102, o kilômetro 103 e, crescendo infinitamente para 104, 105, 106, ... 10n, nunca terminaremos de multiplicar. Da mesma forma, o centímetro é 10-2, o milímetro é 10-3 e, diminuindo cada vez mais a medida, faremos 10-4, 10-5, 10-6, ... 10-n,  sem nunca terminar de dividir. Por menor que seja a divisão, ela sempre será extensa, pois sempre poderá ser dividida em partes cada vez menores mas sempre extensas. A divisão infinita do espaço é portanto a origem do extenso, pois sua soma conduz ao espaço infinito e sua divisão conduz ao espaço infinito, infinito na grandeza e infinito na pequenez, sempre infinito e extenso, possibilidade de existência dos objetos extensos.

 

A divisão do tempo não é diferente. Existe um tempo infinitamente grande e um tempo infinitamente pequeno, mas sempre extenso. O minuto se multiplica em horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, milênios até o infinito. Assim como se multiplica, o tempo também se divide: o minuto em segundos, os segundos em décimos de segundos, centésimos de segundos, milésimos de segundos, milionésimos de segundos, até chegar ao infinito. Isso demonstra que, tanto na grandeza como na pequenez, o infinito é sempre extenso. Então, a divisão infinita do tempo, levando ao infinitamente pequeno é uma jornada do extenso para o extenso, pois é o tempo se dividindo em tempo. O inextenso origina o extenso, mas o extenso não origina o inextenso. A extensão da divisão infinita do tempo é tão perspicaz que se pode prever com precisão o que ocorre no mundo de alta velocidade das partículas em intervalos de tempo extremamente pequenos, como 10-10segundos, 10-20 segundos,    10-40 segundos, 10-100 segundos, 10-1000 segundos, ... 10-n segundos. Foi assim que os aceleradores de partículas conseguiram prever o que ocorreu em intervalos infinitamente pequenos de segundos após o big bang. Esses infinitamente pequenos, deram origem ao infinitamente grande que compõe a temporalidade do universo. Portanto, o tempo é sempre extenso, originado da combinação inextensa elementar que resultou no surgimento do extenso.

 

 

 

    4. Inextensão do mistério central e sua relação indissociável com o extenso espaço-temporal.

     

 

No campo da Teologia, a reflexão inicia pelo inextenso, que se identifica à dimensão da eternidade, enquanto o extenso se identifica à dimensão do tempo.

 

A ideia de eternidade faz referência àquilo que é imutável, indivisível, incorruptível. A idéia de tempo faz o caminho inverso: transformação, divisão e corrupção são processos sempre presentes na dimensão espaço-temporal. Um primeiro contato com o assunto pode até conduzir o pensamento à conclusão de que uma dimensão é totalmente dissociada da outra. Contudo, ao longo da história, ocorreu uma presença simples e misteriosa ao mesmo tempo. Um homem chamado Jesus trouxe a idéia oposta a essa divisão e, consequentemente, a quebra do dualismo entre tempo e eternidade. Assim como entre extenso e inextenso não existe ruptura nem dualismo, o mesmo se verifica entre tempo e eternidade. O próprio Jesus é a presença viva de que esta dissociação não existe. O dogma da união hipostática diz que Jesus é homem e Deus, cem por cento homem e cem por cento Deus. Nele se unem o divino e o humano sem prejuízo de nenhum deles. Um não se sobrepõe ao outro, mas ambos existem juntos em total harmonia. Assim, em Jesus o extenso e o inextenso estão sempre presentes. A pessoa de Jesus não veio para falar de privilégio de um sobre o outro, mas de comunhão absoluta entre ambos. Em sua pregação, quando diz que o Reino do Céu está próximo, ele quer dizer que já está presente, o inextenso gerou o extenso sem deixar de estar presente junto ao extenso. Da mesma forma, na realidade temporal, tal fato se confirma. O inextenso gerou o extenso e se torna presente no extenso, estabelecendo com ele total comunhão. Entre extenso e inextenso não se faz comparação, mas complementação. Assim, percebemos uma identificação entre dogma e investigação em relação às idéias de extensão e inextensão.

 

Já vimos que na natureza o elétron se revela como inextenso e portanto indivisível, uma realidade monadológica. Assim sendo, uma relação dogmática pode ser tirada desta situação com a realidade chamada Mistério Central. Dentro do mundo dos sacramentos existe aquele que é o centro, chamado Eucaristia. Nela uma nova revelação se manifesta na relação entre extenso e inextenso, pois as espécies de pão e de vinho, definidas pela extensão, se tornam elementos fundamentais para possibilitar a presença misteriosa da inextensão. A Eucaristia é o corpo ressuscitado e inextenso de Cristo, que se faz presente graças à existência do extenso presente nos elementos da criação. O inextenso divino se faz presente no extenso da criação para atingir tanto a extensão como a própria inextensão. Perpetuada ao longo da história, a Eucaristia demonstra ser elo de união, pois ao recebê-la, recebemos a inextensa eternidade que, sendo imutável, mudou-se em extensão para comunicá-la de sua ligação originária e irreversível com a inextensão.

 

No mundo natural os elétrons inextensos estão sempre ligados à matéria extensa e somente nesta seus efeitos são sentidos. Assim, corpos eletrizados contém elétrons livres, capazes de produzir condução de cargas elétricas. Basta o extenso tocar o inextenso para que seus efeitos sejam notados em sua extensão. Basta o inextenso encontrar o extenso para produzir seus efeitos que serão captados como extensão.

 

No mundo sobrenatural está presente a inextensão, mas basta um mero Faça-se para que seus efeitos sejam sentidos na extensão. Basta um mero ato de fé para que a inextensão seja absorvida pela extensão. Então a inextensão é sempre elementar e se complexifica na complexidade da extensão. Condensações do hidrogênio inicial geraram a galáxias, dentro destas, as subcondesações do hidrogênio galático geraram as estrelas e nelas, a complexificação dos elementos leves que se tornaram pesados, originaram os planetas e a vida. O sobrenatural e o natural dão as mãos para estabelecer o resultado inevitável do contato da extensão com a inextensão.

 

Partículas elementares e Eucaristia são, assim, duas faces de uma mesma moeda que já não são duas, mas se tornam únicas, pois em ambas se verifica o movimento perfeito que confere identificação entre extensão e inextensão.

 

Leonardo Araújo Silva é Filósofo, Físico e Teólogo da Comunidade Raízes de Jessé.

Voltar
 

..........